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Luiz Carlos Merten

03 Julho 2009 | 23h16

Anna Karina em ‘Agora ou Nunca’, Marina Vlady em ‘A Mentirosa’, Adorable Menteuse. Os primeiros filmes de Michel Deville testemunham um duplo fascínio, pelo humor e pelas mulheres. Deville foi assistente de 1951 a 57 e, neste sentido, essa formação ‘profissional’ não o credencia a ser reconhecido como um cineasta nouvelle vague. E, depois, seu primeiro registro foi o humor, e todo mundo sabe que a nouvelle vague teve um só diretor de comédias, e foi Philippe De Broca. Mas De Broca também havia sido assistente – de Henri Décoin, Claude Chabrol e François Truffaut – antes de fazer ‘Brincando de Amor’ e ‘O Gozador’, que são simpáticas, mas sua obra-prima é ‘O Amante de Cinco Dias’, com Jean-Pierre Cassel e Jean Seberg, que tem um dos mais belos diálogos do cinema francês (e mundial). Jean é casada com François Périer e amante de Cassel. Numa cena, o marido cocu põe as crianças na cama, enquanto a mulher está com o outro. E ele diz – ‘Eu sei que vocês estão preocupados porque mamãe está atrasada, mas ela está bem. É só que mamãe usa sapatos de salto alto e é difícil caminhar com eles.’ Mesmo que não seja característicamente nouvelle vague, Deville integra o atual ciclo da Cinemateca, dedicado à nouvelle vague (e suas ‘estrelas’). Deville era um diretor enquanto durou seu casamento com a roteirista Nina Companaez. Quando se separaram, ela própria virou diretora e ele mudou de registro, passando para o drama. Na parceria Deville/Companaez, amo ‘Rafael ou Le Débauché’, lançado no Brasil como ‘O Libertino’, com Pierre Clémenti. Vieram depois os filmes ‘perversos’ que estabeleceram a reputação de Deville sozinho – ‘Investigação do Senhor 51’, ‘Perigo no Coração’ e ‘Uma Leitora Muito Particular’. O ciclo da Cinemateca tem todos aqueles Godards que você espera ou imagina, mas tem também Deville (e Anna Karina) e ‘Adieu, Philippine’, de Jacques Rozier, que Antoine de Baecque, no livro ‘Nouvelle Vague – Portrait d’Une Jeunesse’, considera um dos 20 filmes que fizeram o movimento. Rozier será uma surpresa para quem nunca viu seus filmes. Nenhum outro diretor colocou na tela, em 1960, a França da Guerra da Argélia como ele. Nenhum outro, nem Godard em ‘Acossado’ (À Bout de Souffle), fez um filme tão jovem sobre a juventude francesa do período. Recomendo que não percam o ciclo da nouvelle vague, que completa 50 anos em 2009. Procurem os horários e datas em que esses filmes serão exibidos. E não percam especialmente o de Rozier.