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Luiz Carlos Merten

01 Junho 2010 | 09h59

Primeiro havia ficado em dúvida – quem é Stéphane Brizé? Zanin dizia que o nome tanrto a homens como a mulheres. Eu achava que Stéphane soa mais como o italiano Steffano. O feminino seria, ou é, Steffania/Stéphanie. Fiz agora uma pesquisa rápida e Stéphane Brizé é homem. Li só o abre da frase. ‘He first experienced theatre, before realizing that cinema…’ Ele tentou o teatro antes de se dar conta de que o cinema (era seu meio de expressão). Stéphane Brizé é o diretor de ‘Mademoiselle Chambon’. Que filme maravilhoso! E que atores geniais são Vincent Lindon e Sandrine Kiberlain. Numa cena, Lindon está tão perturbado – por amor a Sandrine – que sua mulher lhe pergunta o que está ocorrendo. Durante a festa de aniversário do pai dele, ela captou o olhar de Lindon, que observa Sandrine, enquanto toca ao violino uma peça de Elgar. Ele responde ‘Nada’, como poderia ter dito ‘Tudo’. Lembrei-me da cena famosa de ‘Passagem para a Índia’, de David Lean, quando Judy Davis volta de seu passeio na floresta, onde descobriu o templo com as inscrições eróticas. Tudo ou nada – há um cinema que precisa ser minimalista para se enriquecer. ‘Mademoiselle Chambon’ é simples até não poder. A ‘história’ é batida. Simples, já-visto? Lindon trabalha na construção civil. Leva uma vida ordinária, no sentido de ‘comum’. Mulher, filho. Entra na vida dele a professora do filho. Me lembrei de ‘As Duas Faces da Felicidade’, Le Bonheur, de Agnès Varda. Lá, o cara era carpinteiro, também vivia uma existência perfeita com a mulher e os filhos, até conhecer a outra. O filme de Varda é sobre a impossibilidade da fantasia masculina das duas mulheres. É curioso que tenha sido feito por uma diretora. Jean-Claude Drouot poderia seguir com sua mulher e com Marie France Boyer. A mulher descobre e se mata, para que ele seja feliz com a outra. O filme termina com o herói infeliz. ‘Mademoiselle Chambon’  não é exatamente sobre isso, mas é sobre uma escolha impossível. Vincent Lindon não tem como escolher. É um filme que o espectador sabe exatamente como vai terminar. O suspense é de outra ordem. Stéphane Brizé constroi seu filme nos detalhes. Lindon é pedreiro, trabalha com as mãos. Sandrine toca violino. As mãos, de novo. O toque. E o vento – o diretor usa o vento (será que ele alguma vez ouviu falar em Erico Verissimo?)  para expressar o turbilhão interior que consome o protagonista. O vento e a peça de Elgar. Recomendo ‘Mademoiselle Chambon’ com o maior entusiasmo. Tão bonito filme.