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Luiz Carlos Merten

18 Agosto 2007 | 12h51

GRAMADO – Gostei muito de dois filmes estrangeiros (latinos) a que assisti no 35º festival. Nacido y Criado, de Pablo Trapero, que foi outro filme que me tocou de uma forma visceral, e El Baño del Papa, de Enrique Fernández e César Charlone, que transforma quase-nada em tudo. É um daqueles filmes que partem de uma história pequena, singela e a enriquecem para abarcar o mundo. Mas ainda havbia o último latino da competição, Madeinusa, de Claudia Llosa, que passou ontem à noite, antes da homenagem a Coutinho. Madeinusa ganhou uma enxurrada de prêmios, incluindo o da crítica em Roterdã. Achei um horror, por mais que a história seja conceitualmente inusitada. Num vilarejo do altiplano do Peru, uma região belíssima, que visitei no começo dos anos 70, tudo fica liberado na Semana Santa, naqueles três dias em que o Cristo está morto e, com os olhos vendados, não pode ver os pecados dos homens. Neste quadro, uma garota prometida para o pai, foge ao incesto dando-se a um estrangeiro que chega à localidade. Picnic (Férias de Amor) no altiplano? Não é legal? Pois Madeinusa transforma esse ponto de partida numa macumba medonha para turista. Além da folclorização da cultura de raiz, o filme tem uma morbidez e um desenho de personagem (a garota, com sua ação final) que me deixaram ‘nel suelo’. Madeinusa será distribuído nos cinemas brasileiros por Filmes do Estação. Aguardem e, depois, me digam se exagero. Estava terminando o post quando me lembrei de uma coisa. Madeinusa é o nome da garota, mas também é o título de um filme famoso do Godard, nos anos 60, com a mulher dele na época, Anna Karina. Estou indo para o debate do Coutinho, mas prometo dar uma pensadinha, na volta, para ver se cabe uma ponte entre os dois filmes, madeinusa e Made in USA. Não vai melhorar o programa que vi ontem, mas pelo menos vai ser possível fazer o registro.

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