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Luiz Carlos Merten

15 Fevereiro 2009 | 10h32

PARIS – Deixei Berlim hoje cedo e vim para Paris, de onde regresso amanhã para o Brasil. Chega – estou há mais de um mês viajando, mas resolvi parar aqui uma noite para assistir a ‘Le Petit Fugitif’ e quem sabe mais alguma coisa que tenha estreado (preciso conferir). Deus ajuda quem madruga. No ano passado, havia encontrado o presidente do júri, Costa-Gavras, que me deu uma entrevista exclusiva comentando o prêmio conferido a ‘Tropa de Elite’. Neste ano, Tilda Swinton estava no mesmo vôo, mas não me atrevi a falar com ele em Tegel, o aeroporto de Berlim, porque Michel ‘Positif’ Ciment a estava alugando. Em Paris, no aeroporto Charles De Gaulle, aproveitei um minuto em que ela estava sozinha para puxar conversa. Tilda impressiona. Usava um casacão ocre, daqueles que arrastam no chão, e seu cabelo curto, somado a nenhuma maquiagem, a deixam singularmente andrógina. Não admira que seja ícone gay. Mas o marcante mesmo é o olho – são os olhos. Ela parece que quer trespassar a gente. Comentei que a escolha do júri, independentemente de se gostar ou não dos grandes vencedores – achei ‘La Teta Asustada’ interessante, mas gostei mais de ‘Gigante’ -, havia sido muito coerente, baseada num conceito que contempla o cinema mais autoral e independente. O próprio prêmio para Andrzej Wajda contempla um autor veterano, mas que muda seu registro e ousa bastante. Tilda disse que o júri era heterogêneo, mas era formado por pessoas que acreditavam no diálogo. Todas as grandes decisões foram unânimes, o que inclui o Urso para ‘La Teta…’ e o Grande Prêmio para ‘Gigante’. Ontem, na pressa de dar o resultado, acompanhhar as entrevistas e redigir um texto para a edição de hoje do ‘Estado’ – mais o jantar de despedida com Alessandro Giannini e Orlando Margarido; Silvana Arantes sumiu -, não tive tempo de postar grande coisa. Achei, como estou dizendo, a premiação muito coerente. E, independentemente de aprovar ou não todos os prêmios, achei que o encerramento da Berlinale de 2009 foi uma linda festa latina. A euforia de Claudia Llosa e Adrián Biniez era algo que a gente – eu, pelo menos – compartilhava porque o reconhecimento de novos talentos é uma coisa gratificante, com os defeitos que ainda possam ter (e que tomara sejam eliminados com o amadurecimento). Achei, o que pode parecer paradoxal, o encerramento de ontem muito mais emocionante do que o de José Padilha no ano passado. Talvez porque a vitória de Padilha tenha sido uma surpresa e a de Claudia já fosse anunciada pelo prêmio da crítica, ou então porque Padilha é mais travado e não quis compartilhar sua vitória com a gente, digo o público do festival, com a mesma intensidade de Claudia e Biniez. O diretor argentino (do filme uruguaio) foi ótimo. Perguntaram-lhe como se comemora tantos prêmios. ‘Enborrachandose’ (Tomando um porre), foi sua resposta. Não me lembro exatamente das palavras, mas ele também sugeriu que outra forma de comemoração passa pela cama (o sexo). O que diria para seus amigos de Montevidéu e Buenos Aires? ‘Preparem o assado (churrasco)”. Claudia prometeu voltar para o Peru e fazer uma sessão de seu filme ao ar livre, para a comunidade de Machay, que a apoiou tanto. “Esse prêmio – mostrava o Urso de Ouro – é do Peru.” Sou um sentimental. Terminei entrando no clima e me senti latino como nunca.