Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » ‘Machete’!

Cultura

Luiz Carlos Merten

21 Outubro 2010 | 15h42

Tinha matérias para a edição de amanhã do ‘Caderno 2’ e até uma entrevista – que remarquei – para ver ‘Machete’ agora pela manhã, nas cabines da Mostra. A-do-rei! No Rio, não exatamente com essas palavras, meu amigo Rodrigo Fonseca me acusou de perder tempo correndo atrás de filmes ‘cabeça’ e, desta forma, estar me privando de assistir aos verdadeiros grandes filmes do festival. A saber – ‘Machete’, ‘Machete’, ‘Machete’. Não posso dizer que Rodrigo estivesse errado, e até me disponho a sustentar que não se trata de um daqueles prazeres ‘inconfessáveis’. A riqueza do filme é incomensurável e a sessão, aliás, começou engraçada, com a cópia do filme de Robert Rodriguez e Ethan Maniquis – não sabia que era uma co-direção; será que estão brigando na Justiça? – sendo precedida pela vinheta do Festival do Rio, que nela estava acoplada. A vinheta não havia sido criada para o festival, mas foi liberada por Carlos Saldanha – é um trecho de sua animação sobre um moderno zé carioca, um papagaio criado por gringos e que se perde no Brasil. O voo de asa delta ao redor da estátua do Cristo é deslumbrante. Via todo dia, várias vezes ao dia, aquela pequena (na duração) obra-prima e hoje me emocionei profundamente ao revê-la. Não sei se aquilo também preparou meu ânimo, mas o filme de Rodriguez (e Maniquis, seja lá quem for) é bom demais. Danny Trejo, um dos homens mais feios do mundo, termina o filme como um dos mais belos e quando ele passa o rodo – desculpem a vulgaridade, mas é uma das piadas do filme – nas belas do elenco (Lindsay Lohan, Michelle Rodriguez e a insuperável Jessica Alba), a coisa toda vira uma festa. O prazer dos olhos (e não apenas). O filme é sobre um federal que, dado como morto, volta para se vingar da aliança entre políticos, traficantes e policiais corruptos que age nos dois lados da fronteira mexicana. Rodriguez conseguiu reunir uma canalha para ninguém botar defeito (Don Johnson, Jeff Fahey, Cheech Marin, Steven Seagal, Michael Parks etc), mas o destaque masculino é Robert De Niro como um político que faz da caçada aos ilegais a plataforma de sua campanha, até virar – veja para saber como –  ele próprio… Espere para ver. ‘Machete’ surgiu como um trailer, ou dois trailers, que Robert Rodriguez e Quentin Tarantino mostraram para exibidores e distribuidores e a euforia foi tão grande que o filme teve de ser feito (para segurar o trailer?). A história é tão boa que, se não for verdadeira, tem mesmo assim de ser imortalizada, contribuindo para a mística do filme que aposta – em 2010! – numa vertente revolucionária em que os despossuídos, pegando em armas, ou no machete, vão restabelecer o primado da lei. O interessante é que, se dois trailers estão na sua origem, ‘Machete’ encerra-se com outros dois, anunciando ‘Machete Kills’ e ‘Machete Kills again’, hilariantes. Terminei o filme em estado de graça, agradecendo aos céus por ter visto o novo RR. Só espero que vocês experimentem o mesmo prazer.

Encontrou algum erro? Entre em contato