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‘Macbeth’

Luiz Carlos Merten

27 Outubro 2012 | 14h30

Livros e DVDs estão de novo empilhados pela minha casa, por toda parte. Depois de muito tempo, encontrei numa pilha o livro de cult movies de Danny Peary. Resolvi consultar para ver se havia um verbete sobre ‘Macon County Line’. Não me perguntem por quê, mas amanheci pensando no filme de Richard Compton – escrito, produzido e interpretado por Max Baer Jr. Havia o verbete, e eu prometo falar sobre o filme e o diretor, mas antes, por ordem alfabética, estavam listados dois ‘Macbeths’, o de Orson Welles e o de Roman Polanski, que Peary, obviamente, prefere, chegando a afirmar que se trata, visualmente, do melhor Shakespeare do cinema. Fazendo a associação, vou falar de outro ‘Macbeth’, o de Gabriel Villela, que estreou no Rio e pelo qual meu amigo recebeu um pau de Bárbara Heliodora. Ela escreveu que ele é responsável pelo melhor e pelo pior da montagem – natural, posto que é (o) autor. Quem sou eu para ensinar o padre a rezar missa, principalmente uma crítica como Bárbara, que ostenta a fama de ser especialista no bardo (a maior do País?). Quem sou eu? Se vocês me conhecem, já estou indo. Não vale apenas para o teatro, mas para qualquer mídia. Há pessoas que ficam reféns da própria sabedoria. Bárbara tem sua visão de Shakespeare, e de Macbeth. Não admite que um diretor como Gabriel Gabriel ouse fugir ao modelo que ela própria instituiu em seu imaginário. Diz que ele corta e torna o texto irreconhecível. Sei bem que Gabriel ama as palavras de Shakespeare e com certeza, e apesar das liberdades, não as descaracterizou. Mesmo assim,, acho que ela tem todo o direito de não gostar do que viu, ou gostar parcialmente, como elogiar o Macbeth de Marcelo Anthony e a lady de Cláudio Fontana. Mas Bárbara faz uma observação que me ficou entalada – gosta da Lady Macbeth do Cláudio, ‘apesar do excesso de véus’. Hein, como? Li direito? A crítica ignora completamente, e isso me parece grave, o diálogo que Gabriel propõe entre Shakespeare e o teatro tradicional japonês. Lembrem-se de Akira Kurosawa – ‘Trono Manchado de Sangue’ e ‘Ran’. Lembrem-se da japonesice da capela do Ó, em Sabará, uma obra-prima do barroco tombada como patrimônio da humanidade. Não é de hoje que o mineiro – e barroco – Gabriel, em suas montagens, flerta com a cultura japonesa. O diálogo se fazia presente em sua montagem anterior, ‘Hécuba’. A lady é japonesa, uma gueixa maléfica, possivelmente inspirada pela Lady Kaede de ‘Ran’, que desencadeia a série de guerras fratricidas, embora, lá, a tragédia adaptada seja ‘Rei Lear’. Cláudio Fontana expressa feminilidade movendo-se no palco com a graça de uma gueixa. Ele parece deslizar sobre patins. O ritmo do deslocamento é dado pelos véus – alô, como não enxergar isso? Ninguém é obrigado a gostar, mas que pelo menos entenda a intenção. Nenhum comentário sobre a japonesição me pareceu meio demais. Achei, Deus me perdoe de investir contra uma figura mítica, uma instituição como Bárbara, seu comentário leviano.