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Luiz Carlos Merten

07 Junho 2011 | 10h47

Ouvi ontem nossa pauteira do ‘Caderno 2’, Eliana Souza, comentar com João Luiz Sampaio um e-mail que havia recebido do Zanin, sobre a morte de Maurice Garrel. Pai de Philippe Garrel e avô de Louis (o belo), Maurice iniciou uma linhagem do cinema e do teatro franceses. Ele próprio começou no teatro e só em 1959, já com 36 anos – nasceu em 1923 –, fez sua estreia no cinema. É preciso ser cinéfilo de carteirinha para saber quem é Maurice – sorry, mas não vou publicar a foto; procurem no Google –, mas, na verdade, ao longo de mais de 50 anos, ele deve ter feito uns cem filmes, o que o transforma num daqueles coadjuvantes que todo mundo sabe quem é, sem identificá-lo pelo nome. Maurice nunca descriminou e trabalhou em filmes de François Rozier, François Truffaut, Claude Chabrol, Pierre Kast, Jean-Gabriel Albicocco – ou seja, toda a turma da nouvelle vague –, da mesma forma como integrou o elenco de diretores de um perfil mais comercial (Jacques Deray, Pierre Gaspard Huit, Christian Jacque). Mas, sim, desde ‘Les Enfants Desacordés’, em 1964, ele deu o ar da graça em todos os filmes de seu filho Philippe. Preciso retificar – em todos tenho a impressão que não. Sou capaz de jurar que Maurice Garrel não está em ‘J’Entends Plus la Guitarre’, de 1991, que foi justamente o filme que tirou o cinema de Philippe do gueto, ao ser premiado em Berlim. Vieram depois ‘La Naissance de l’Amour’, ‘Le Coeur Phantôme’, ‘Os Amantes Constantes’, no qual fazia o avô de François. Maurice Garrel fez muito teatro com Laurent Terzieff. Este é outro que só os cinéfilos de carteirinha reconheçam, mas é um arraso como um dos ‘rapazes’ de ‘A Longa Noite de Loucuras’, de Mauro Bolognini, que acaba de sair em DVD (da Platina). Maurice Garrel ganhou duas vezes o César, o Oscar francês, de coadjuvante – do meilleur second rôle, como eles dizem –, por ‘La Discrète’, de Christian Vincent, em 1990, e ‘Reis e Rainha’, de Arnaud Desplechin, em 2004. Um de seus últimos papeis foi como o pai de ‘Actrices’, de Valeria Bruni Tedeschi, prima de Carla Bruni, mulher do presidente Nicolas Sarkozy, e mulher de Louis Garrel. Ou seja, muita coisa importante que Maurice Garrel fez foi em família. A maioria de seus papeis nos filmes do filho tem, inclusive, cunho autobiográfico. Se nasceu em 1923, Maurice morreu, vamos fazer as contas, bem velhinho, aos 88 anos.