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Luiz Carlos Merten

23 Dezembro 2011 | 09h16

Joseph Losey começa seu filme numa sala médica, onde uma mulher está sendo examinada por um especialista em raças, para ver se ela é uma ariana pura. E termina no estádio, com o embarque dos judeus que são enviados para os campos de concentração – a mulher da primeira cena está entre eles. Entre esses extremos por assim dizer ‘realistas’,‘M. Klein’ cria uma espécie de labirinto – da consciência, da mente – para descrever a experiências de isolamento do personagem interpretado (genialmente, aliás) por Alain Delon. No auge da juventude de Delon, Luchino Visconti usou sua extraordinárias beleza para esculpir a pureza e o idealismo de Rocco. Anos mais tarde, e radicalizando o uso que René Clément havia feito do ator em ‘O Sol por Testemunha’, Jean-Pierre Melville descobriu a dureza das linhas do rosto de Delon e fez dele o assassino profissional de ‘O Samurai’. Em ‘M. Klein’, Delon faz um comerciante de objetos de arte que não revela nenhuma sensibilidade para os problemas da França ocupada pelos nazistas. ‘M. Klein’ não é tanto sobre o horror das brutalidades do nazismo, embora elas estejam lá. É sobre o horror da indiferença e por isso permanece tão atual hoje quanto nos anos 1970, quando foi realizado. Pegue o exemplo de outro filme em cartaz, o ‘Machine Gun Preacher’ de Marc Foster, que no Brasil se chama ‘Redenção’, com Gerard Butler. Foster é um diretor honesto e tem bons filmes no currículo. Eu, particularmente, gosto de ‘Em Busca da Terra do Nunca’, ‘Mais Estranho Que a Ficção’ e ‘O Caçador de Pipas’. Foster também quer falar sobre a indiferença em ‘Redenção’, mostrando a exasperação de seu protagonista, um sujeito que começa criminoso, vira pastor e segue empregando os mesmos métodos. Ele chega a dizer a seus fieis que Deus não quer um rebanho de ovelhas, mas uma matilha de lobos de dentes afiados em defesa de seus princípíos. E dê-lhe porrada. ‘Redenção’ baseias-se numa história real e, depois que ela termina, durante os créditos finais, aparecem as imagens do personagem que inspirou a ficção. Tudo é verdadeiro, bem intencionado, mas a narrativa romantizada, de ação, meio que banaliza o que o diretor quer dizer sobre a violência na África e as crianças vítimas de guerras tribais no Sudão. O que faz a diferença em ‘M. Klein’ é o método de Losey. Na juventude, lá pelos seus 20 e poucos anos, ele fez teatro com Bertold Brecht. Aprendeu tudo sobre o ‘estranhamento’ que Brecht pregava para manter o espectador lúcido, para impedir que ele se alienasse no espetáculo. Esse estranhamento virou ‘distanciamento’, mas Brecht nunca empregou, até onde sei, nunca empregou a palavra. Losey conta sua história com frieza, digamos com indiferença. Delon é gélido no papel. Não se interessa pelo sofrimento dos outros, é insensível. Mas aí ele recebe esse documento, essa intimação em seu nome. Vai se queixar à autoridade. Trata-se de outro Klein, mas não, a autoridade rebate. E Klein vira prisioneiro da mesma máquina indiferente à dor do humano. O labirinto (de Borges?) vira absurdo (de Kafka?). Num certo sentido, ’M.Klein’ foi o último grande filme de Losey e a culminação de seu estilo, que volta e meia absorve elementos barrocos e, por isso, alguns críticos o acusavam de ser ‘maneirista’. Qusanfo escrevi ‘o último grande filme’, não me esqueci de ‘Don Giovanni’, que Losey fez rapidamente, mas que é o produto de toda uma vida, as depuração de sua mise-em-scène. Losey, como Elia Kazan, começou no teatro, e de esquerda. Ao contrário de Kazan, que colaborou com o mascarthismo, ele teve de se exilar, trocando os EUA pela Europa, onde fez filmes sob pseudônimo, acabando por se estabelecer na Inglaterra, onde, aos poucos, retomou suas identidade e o respeito da crítica. Michel Ciment, que foi jurado da Mostra há coisa de dois, três anos, escreveu um livro de entrevistas com Kazan e outro com Losey. Ele juntou os dois num só alentado volume, precedido de um prólogo para mostrar como as vidas de ambos, aparentemente tão distintas (no sentido de diferentes), na verdade foram sempre muito proximas. ‘M. Klein’ foi escrito por Franco Solinas, roteirista dos filmes políticos de Costa-Gavras e Gillo Pontecorvo. Era um grande profissional, mas a pegada do filme é do diretor. ‘M. Klein’ foi exibido em Cannes, não me lembro se concorrendo. Losey havia recebido, anos antes, a Palma de Ouro, por ‘O Mensageiro do Amor’, com roteiro de Harold Pinter. Tennessee Williams presidia o júri e Losey havia trasnsformado ‘The Milktrain Doesn’t Stop Here Anymore’ em ‘Boom!’, O Homem Que Veio de Longe, com o casal Burton/Taylor. Tennessee Williams fez, na época, uma polêmica declaração, dizendo que a arte, o cinema, não deveriam ser políticos. Sempre ouvi dizer, mas não estava lá para confirmar, que Losey, no mesmo dia, na coletiva de ‘M. Klein’ teria dito que toda arte, mesmo a mais aparentemente alienada, é política. Quase 40 anos depois, a estética de Losey continua impressionante, mas o que faz a atualidade de seu filme é a política. A indiferença segue sendo nosso pecado capital.