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Lynch, o número um?

Luiz Carlos Merten

23 Janeiro 2010 | 12h16

Não sei se vocês já sabem, mas ‘Cahiers du Cinéma’ estampa na capa de sua edição de janeiro uma chamada – ‘Os melhores filmes dos anos 2000’. A foto já dá uma pista. Embora não muito clara – meia face de cada uma, apenas -, Naomi Watts e Laura Harring sinalizam para a escolha da revista, ‘Mulholland Drive’, de David Lynch, que no Brasil se chama, como é mesmo, ‘Cidade dos Sonhos’? Lá dentro, a lista completa de dez. O 1 e 2 não me interessam muito, tenho de admitir, mesmo com o risco de levar pedradas, mas vocês sabem que não sou devoto de são Lynch nem de são Van Sant. ‘Mulholland Drive’ e ‘Elefante’ encabeçam a lista. Para não ser acusado de preconceituoso – burro, talvez -, aproveitei que ‘Cidade dos Sonhos’ estava numa sessão, num ciclo dedicado ao autor na Filmoteca do Quartier Latin, e lá fui rever o filme. Faço aqui um parêntese (nada a ver com o pobre George Clooney de ‘Amor sem Escalas’, referência que só vai entender quem tiver visto a ‘comédia’ de Jason Reitman). Alain Resnais é a capa de ‘Cahiers’ em novembro, que tambem consegui comprar em Paris. Resnais é cinéfilo de carteirinha. Vê em média três filmes por semana, e gosta de vê-los no cinema. Resnais revela que ama Zhang Yimou (‘Viver’ como ‘O Clã das Adagas Voadoras’) e, interpelado pela revista, diz que viu três vezes ‘Mulholland Drive’. Confessa que é fascinado pelo filme, mas seria incapaz de fornecer um motivo preciso. E ele se faz uma pergunta – como e por que alguns filmes conseguem ser atraentes mesmo quando não se gosta da trama nem dos personages? É o caso dele em relação a ‘Mulholland Drive’. Confesso que entendo perfeitamente seu ponto de vista porque me senti mais ou menos assim revendo o filme. Nada daquilo me interessava, mas eu tinha um prazer até mesmo perverso e acredito saber por quê – como resistir a Naomi Watts, de quem gosto tanto? Via a atriz chez Lynch e me lembrava dela em ‘King Kong’. De volta à lista de ‘Cahiers’, passando olimpicamente pelo 1 e pelo 2, a coisa começa a melhorar no 3, ‘Mal dos Trópicos’, de Apichatpong Weerasethakul, e segue boa até o 6 – ‘O Hóspede’, de Bong Joon-ho; ‘História de Violência’, de David Cronenberg; e ‘O Segredo do Grão’, de Abdellatif Kechiche. Salto o 7, que não conheço – e até procurei para ver se o filme passava em alguma sala, mas é mais antigo, ‘À l’Ouest des Rails’, de Wang Bing. Amo o 8, ‘Guerra dos Mundos’, de Spielberg, acho bonito o 9, ‘O Novo Mundo’, de Terrence Malick – mas não gosto muito, não – e sobre o 10 tenho de fazer uma confissão. Sempre gostei muito de ’10’, de Abbas Kiarostami, mas depois da decepção provocada por ‘Shirin’, que vi na Mostra do ano passado, já não estou mais tão seguro das virtudes do ‘experimentalismo’ do diretor. Teria de rever o filme (‘Shirin’ não revejo porque achei um tédio). Sobre ‘Guerra dos Mundos’, acrescento que o filme estreou em São Paulo quando eu estava fora, não me lembro onde nem por quê. Quando cheguei, o filme estava contemplado com uma bola preta atribuída por Luiz Zanin Oricchio. Fui ver e tive aquela reação de entusiasmo que vocês sabem. O filme é o episódio intermediário da admirável trilogia de Spielberg sobre o 11 de Setembro, sem que uma referência seja feita ao ataque às torres gêmeas não apenas nesse filme, mas também em ‘O Terminal’ e ‘Munique’. Dei a cotação máxima para levantar as estrelas e garantir que o filme fosse bom. Meu editor até perguntou se eu gostava mesmo tanto assim de ‘Guerra dos Mundos’ ou só estava querendo melhorar a cotação. ‘Cahiers’, a Bíblia do cinema de autor, agora faz justiça a Steven e eu fico contente, mesmo que a revista, em si, não me mereça tanto crédito. O entusiasmo de ‘Cahiers’ por Lynch e Gus Van Sant, por outro lado, me parece excessivo. Enfim, ninguém é perfeito…