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Luiz Carlos Merten

25 Julho 2008 | 12h36

Cheguei na redação e havia um monte de livros e DVDs à minha espera, entre eles ‘Em Águas Profundas’, livro de David Lynch – uma coletânea de ensaios sobre criatividade e meditação – que está sendo lançado no Brasil pela Gryphus. O próprio Lynch chega ao Brasil no dia 3 de agosto para o lançamento. Passa por Rio e Belo Horizonte antes de dar as caras por aqui, na Livraria Cultura, na quinta-feira, dia 7. Não vou estar em São Paulo. Dias 2 e 3 vou a São Francisco – ao rancho de George Lucas! – e exatamente dia 7 tenho um compromisso em Porto Alegre, um debate sobre cinema como arte do século 20. Perdoem-me se os escandalizar, mas não vou chorar por perder o Lynch. Não tenho muita paciência com ele. Gostava de Lynch na época de ‘O Homem Elefante’ e ‘Veludo Azul’ – ‘História Real’, seu filme mais atípico, é o que mais me perturba -, mas o cara virou gênero de si mesmo e me aborrece profundamente. Não vejo muita profundidade naquilo. É o tipo da bizarrice que não me estimula (e até me cansa, algo do tipo ‘Lá vem ele de novo’). Mas sei que tem gente que adora. Sejam felizes com Lynch em São Paulo. Este curto desabafo vai me levar a Antonioni. Já falei que comprei a edição de julho de ‘Positif’ e a revista homenageia Michelangelo Antonioni, quase um ano após sua morte. ‘Positif’ resgata Antonioni crítico de cinema e até reedita seus textos sobre a Mostra de Veneza, de 1940. Vários ensaios dissecam Antonioni e Lucia Bosè (o divismo revisitado), Antonioni e a pintura, ‘Suas Noites São Mais Belas Que Nossos Dias (a poética noturna do autor), a inutilidade da palavra, o desaparecimento do sujeito, o tempo de ‘O Eclipse’, o medo do espaço (Antonioni por Kiju Yoshida) e por aí afora. Tem também uma entrevista de Antonioni, datada de 1969. Antonioni fala de seus filmes do cinema em geral. Lá pelas tantas, o entrevistador – Charles Thomas Samuels – comenta alguma coisa sobre Truffaut. Antonioni cai matando. Diz que suas imagens são potentes como as de Resnais e Godard, mas que no limite as histórias de Truffaut são frívolas e é o tipo do cinema que passa sem deixar vestígios. Tenho uma relação ambivalente com Truffaut. Gosto muito de ‘Os Incompreendidos’, ‘Jules e Jim’ e ‘O Garoto Selvagem’ (meu preferido), mas nunca consegui entrar no clima de ‘A Mulher do Lado’, por exemplo. Pode ser uma questão de gosto, de sensibilidade, mas assim como Antonioni é reticente em relação a Truffaut eu sou reticente a Lynch. Eu também acho aquilo frívolo. ‘Império dos Sonhos’ não me diz nada, Laura Dern e sua agonia no Hollywood Boulevard não me tocam. Um exercício de estilo, e daí? Que pena que os comentários de vocês andem sumidos. Já imagino como iam me esculhambar…