Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Luz Silenciosa

Cultura

Luiz Carlos Merten

27 Maio 2007 | 10h17

CANNES – Com três filmes no currículo (Japón, Batalha no Céu e agora Sellet Licht/Luz Silenciosa), o mexicano Carlos Reygadas era o único diretor que me faltava conferir, entre os que concorrem à Palma de Ouro. O 60º Festival de Cannes termina dentro de algumas horas. A premiação começa às 19h30, horário local, 16h30 no Brasil. Havia perdido Luz Silenciosa na sessão oficial, à tarde, porque na hora estava entrevistando acho que o Javier Bardem. Reygadas tem três filme e os três passaram em Cannes, dois na competição. Quem viu Batalla nel Cielo deve se lembrar que o diretor é atraído pelos temas do sexo e da religião. Seu novo filme lembra Ordet/A Palavra, de Carl Theodor Dreyer, mais pela intenção do que pelo resultado. Até agora não consegui descobrir se gostei, mas Reygadas mexeu comigo, com certeza. Seu filme tem esse título, e não é por acaso. A Luz Silenciosa é, na verdade, misteriosa. Reygadas começa filmando, lentamente, o amanhecer. É noite, as estrelas brilham e o mistério da luz começa a se operar diante do espectador. No fim, o movimento é inverso. A câmera fixa o horizonte, o sol se põe, cai a noite, as estrelas começam a brilhar. Entre esses extremos, Reygadas filma uma comunidade de menonitas que, confesso minha ignorância, nem sabia que existiam. Como os amish, formam uma comunidade religiosa fechada, cujos integrantes falam uma espécie de dialeto e vivem segundo costumes que datam de centenas de anos. Os movimentos de câmera são lentos, mas tudo evoca o tempo que passa. Mais vira menos, como queria Mário Peixoto, autor do cultuado Limite. Ao contrário dos amish, os manonitas, que não são tão radicais, possuem carros e dispõem de certos confortos – suas casas dispõem de energia elétrica, o leite das vacas é tirado por meios mecânicos. Talvez seja esse flerte com a modernidade que leva Johan, o protagonista, a se envolver com outra mulher, embora seja casado, pai de numerosos filhos (e filho do pastor). Sua mulher não agüenta a pressão e morre, mas quem disse que a morte é definitiva? Lembrem-se de Dreyer. Reygadas filmou o desejo em Batalha no Céu. Aqui, a paixão é uma coisa fria, mesmo quando Johan e Mariana, a amante, tiram a roupa e fazem sexo. No filme anterior, o sexo era explícito. Aqui, não, talvez porque Reygadas conte com um verdadeiro manonita, Cornelio Wall, interpretando Johan. Achei a luz do filme deslumbrante. Como Cannes sempre dá um prêmio de contribuição artística, eu, se fosse do júri, ia querer premiar a luz de Reygadas.