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Cultura » Lumet, Woody Allen e Roger Donaldson

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Luiz Carlos Merten

06 Junho 2008 | 13h12

Assisti no Festival de Cannes do ano passado, em Cannes Classics, à versão restaurada de ’12 Homens e Uma Sentença’, de Sidney Lumet, apresentada por Jane Fonda, que substituía o diretor (enfermo) e seu pai, o grande Henry, astro do filme. Em janeiro deste ano, revi, em Paris, um dos meus filmes favoritos de Lumet, ‘Serpico’, numa cópia zero bala (e na maior tela da cidade). Nem me lembro quando, mas Lumet recebeu, há um par de anos, talvez um pouco mais, um Oscar honorário, por sua carreira. É um diretor que respeito, mas me desconcerta e não porque ele tenha feito filmes tão ruins que me deixam embaraçado. ‘O Encontro’, com Anouk Aimée e Omar Sharif, do fim dos anos 60, é um dos piores filmes que vi na vida e ‘A Manhã Seguinte’, com Jane Fonda, lá pelos idos de 1980, é outra coisa horrorosa. Mas eu gosto dos policiais de Lumet, ‘Serpico’ e ‘O Príncipe da Cidade’, e concordo que ‘Rede de Intrigas’ é o melhor filme já feito sobre os bastidores da televisão. Lumet veio da TV e sabe sobre o que fala no filme com Peter Finch, que ganhou um Oscar póstumo, e Faye Dunaway. Acho que existe um pouco de linguagem de TV e de teatro, que ele também praticou, em cada um de seus filmes. Ao mesmo tempo, acho interessantíssimos e completamente cinematográficos os planos-seqüências (no compartimento fechado de um trem!) de ‘Assassinato no Orient Express’. Isto posto, quero dizer que fiquei meio frio diante do novo Lumet, a que assisti numa sessão realizada à meia-noite no Festival do Rio, no ano passado. Talvez fosse o cansaço, não sei – preciso rever o filme para formar uma idéia definitiva -, mas o tema, a história em si, me pareceu mais forte do que a realização propriamente dita. ‘Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto’ começa como um filme de terror – uma tórrida cena de sexo com Philip Seymour Hoffman, Deus nos livre! – e prossegue como um drama familiar. Dois irmãos em dificuldades, que resolvem (um resolve, o outro vai atrás) assaltar a joalheria dos pais, convencidos de que tudo ficará em família. Não há risco, os velhinhos não vão reagir, o seguro vai cobrir o prejuízo. Só que o planejamento não dá certo e, pelo contrário, sai tudo errado, num efeito dominó que cava um fosso cada vez mais fundo para os irmãos afundarem. Num certo sentido – Lumet não deve ter pensado nisso, mas a ponte é possível -, ‘Antes Que o Diabo Saiba’ é uma mistura de Woody Allen (‘O Sonho de Cassandra’) com o filme de Roger Donaldson (no post anterior). Allen quer contar uma história de crime e castigo, refletindo sobre escolhas morais. Lumet não se preocupa tanto com a questão moral, mas com o beco sem saída ou o buraco em que seus personagens se afundam cada vez mais, já que o efeito dominó é aqui irreversível (e não existe um Jason Statham para encontrar a saída). Não acho que o filme de Lumet seja muito bom e o problema, que preciso conferir, é justamente de direção, mas tem uma coisa que me arrebatou (e arrebentou). É a participação de Albert Finney, no papel do pai. Finney surgiu no free cinema inglês, fazendo um personagem de homem comum, da working class, em ‘Tudo Começou num Sábado’ (Saturday Night, Sunday Morning), o filme manifesto de Karel Reisz, por volta de 1960. Ele foi depois o Tom Jones de Tony Richardson, o marido de Audrey Hepburn no deslumbrante ‘Um Caminho para Dois’ (Two for the Road), de Stanley Donen, e – numa idade mais madura – criou personagens cada vez mais densos e dramáticos. Gumshoe, o detetive particular de Stephen Frears; o ator shakespeariano de ‘O Fiel Camareiro’, de Peter Yates; o gângster de ‘Ajuste de Contas’, dos irmãos Coen; e o cônsul Firmino, de ‘À Sombra do Vulcão’, de John Huston. O que mais vocês querem? Para o próprio Lumet, ele tinha sido o Hércules Poirot de ‘Assassinato no Orient Express’. Guardadas as proporções, Albert Finney seria o equivalente de Jean-Paul Belmondo (sem Godard…) no free cinema. Virou um grande trágico e esta é a máscara que ele apresenta em ‘Antes Que o Diabo Saiba’. Quando Albert Finney está em cena, o filme sobe dois tons e fica poderoso. Entregue a Philip Seymour Hoffman e Ethan Hawke, que faz o irmão, é meio que uma farsa familiar. Podia até ser o efeito pretendido pelo Lumet, mas não me convenceu, não.

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