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Cultura » ‘Lula’ – o filme (3)

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Luiz Carlos Merten

29 Novembro 2009 | 13h32

Agora, sim, é o xis da questão. Assisti duas vezes a ‘Lula, o Filho do Brasil’. Em Brasília e ontem. Duas sessões para plateias especiais e, em nenhuma delas, o filme produziu arrebatamento. Os aplausos finais nunca configuram uma ovação. Nem ontem, em presença do próprio Lula. Estava longe e não pude ver se o presidente chorou, como foi sua reação. Por essas regras de protocolo, a segurança isolou a área em que estava, até que ele saísse da sala. A expectativa do produtor Luiz Carlos Barreto é de um megassucesso, mas para que isso ocorra ele terá de motivar muito mais o público. E se… O filme fracassar? Existe essa possibilidade, não? Ninguém trabalha com ela, mas, cala-te boca. eu não surpreenderia, se isso acontecesse. Tenho sido um defensor do que me parece defensável em ‘Lula, o Filho do Brasil’, mas o filme não me parece tão bom nem tão caloroso quanto foi a cinebiografia de outros dois filhos do Brasil, Zezé di Camargo e Luciano, em ‘2 Filhos de Francisco’. Qual é o problema? Na verdade – existe um problema, ou essas plateias divididas, como têm sido até agora (tem gente que vai com parti pris, para odiar, não sejamos cínicos), não são representativas do grande público que vai ver o filme, a partir de 1º de janeiro? Acho, modestamente, que a questão pode ser o melodrama, que virou palavrão para uma nova geração, quando o melodrama está na essência de Verdi e Visconti, para citar dois exemplos. Mais um (exemplo), o terceiro – Douglas Sirk, de quem acaba de sair em DVD ‘Imitação da Vida’. Numa entrevista que concedeu à revista ‘Cahiers du Cinéma’, em 1961, Sirk confessou que seu ideal era a tragédia grega, em que tudo se passa em família, no mesmo lugar. A família é idêntica ao mundo, vira o símbolo desse mundo. ‘Lula, o Filho do Brasil’ pretende, neste sentido, ser sirkiano – mesmo que inconscientemente –,sobre a família. Só que eu, pessoalmente, queria que o filme tivesse coragem de ser mais melodramático. Meu ideal teria sido abrir o berreiro, mas me emociono muito pontualmente, e por motivos pessoais – o beijo roubado, o ato instintivo, meio envergonhado, de esconder a mão, o comício de Vila Euclides – que, gostem ou não os detratores, já entrou para a história do cinema brasileiro (é o nosso ‘Potemkin’?). Fábio Barreto tem negado a abordagem política de ‘Lula, o Filho do Brasil’. Diz que é um melodrama. Talvez tenha de rever sua estratégia. O filme pode não ser partidário, eleitoreiro – para muita gente, há controvérsia, e ela vai continuar. Mas é político, sim. Grandes melodramas são obras-primas políticas. ‘Imitação da Vida’ discute o racismo como raros filmes norte-americanos da época (1959) e aquele funeral, no desfecho, encerra uma fase histórica, antecipando, profeticamente, o que estava por vir nos anos 1960. ‘Rocco’ é pura política. Mas isso tudo é especulação, assunto para retomar no ano que vem, com base nos números de ‘Lula’.

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