Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » ‘Lula’ – o filme (2)

Cultura

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cultura

‘Lula’ – o filme (2)

Luiz Carlos Merten

29 Novembro 2009 | 13h26

Há um momento breve, tão breve em ‘O Filho do Brasil’, que não sei se o espectador se dá conta dele. Eu percebi, anotei e me emocionei porque já vivi situações similares, não hoje, no passado, quando era muito mais jovem (e inseguro). Lula sofreu o acidente, perdeu o dedo. No baile, ele olha a irmã de Lambari, que virou sua primeira mulher. Eles de devoram com os olhos, Rui Ricardo Diaz, que interpreta, belissimamente, o papel, e Cléo Pires. Ele se aproxima meio tímido e, furtivamente, esconde a mão que ficou defeituosa, sem o dedo. Conversam, e é uma conversa meio enrolada, um tentando convencer o outro que estava olhando primeiro. ‘Lula, o Filho do Brasil’ é um filme de detalhes. Esse me tocou particularmente, mas digamos que eu tenha motivos – o ‘meu’ defeito físico – para tê-lo notado. Só que se pode pegar esses detalhes para ver qual é o partido do filme. Lula é um herói? O filme, eleitoreiro, foi feito para que ele faça sua sucessora? Não discuto o eleitoreiro, mas ‘chapa branca’? O Lula retratado não é um herói. Existem momentos – no sindicato, na vida familiar – que eu fiquei pensando, ao me dar conta de que ele estava na sala, se Lula não estaria se sentindo vexado, ao ver sua intimidade devassada, suas dúvidas e indecisões – suas fraquezas, que são humanas – expostas tão escancaradamente na tela grande. Mas é evidente que nenhum retirante pobre chega a presidente se não tiver ‘algo mais’. O filme expõe esses momentos. Garoto, Lula peita o pai – ‘Homem não bate em mulher” – e paralisa Aristides. Ele tem coragem. Adolescente, rouba o beijo. É audacioso. Adulto, com aqueles olhos marejados – e a perda do dedo, ficcionalmente pelo menos, é mais importante do que as pessoas parecem detectar –, esboça a integridade, a franqueza (inclusive no trato político, na questão sindical) e é ela que, no limite, pode explicar os acachapantes 80% de aprovação. Talvez eu surpreenda – e até decepcione – leitores ao dizer que encontrei ontem, no ‘Filho do Brasil’, meus dois filmes e autores preferidos. John Ford e ‘Rastros de Ódio’, Luchino Visconti e ‘Rocco e Seus Irmãos’. São ideias de roteiristas, do diretor? Ainda não entrevistei Fábio Barreto, portanto, sinceramente, não sei. O filme é sobre Lula, sobre sua mãe? Começa pelo pai. Se fôssemos dividir ‘O Filho do Brasil’ em capítulos, o primeiro seria ‘A História de Aristides’. O filme inicia com uma porta que se abre, quando Aristides vai embora. Essa primeira parte se encerra quando dona Lindu (Glória Pires) fecha a porta, excluindo o marido tirano da vida familiar. É o movimento inicial e final de ‘Rastros de Ódio’. Mantendo a divisão em capítulos, como ‘Rocco’ o filme segue as diferentes fases de Lula, como Visconti seguia os integrantes da família Parondi – Vicenzo, Simone, Rocco, Ciro, Lucca. A cena, as cenas, parecem tolas. Lula volta do futebol e o irmão passa com o uniforme do trabalho, que ele admira. Mais tarde, ele suja deliberadamente o macacão – vamos dar munição aos outros, ele engana ali pela primeira vez? –, orgulhoso de haver adquirido uma profissão, uma consciência de classe, como Ciro explica a Lucca, no admirável desfecho de ‘Rocco’. ‘O Filho do Brasil’ é um épico? Só se for da classe operária. Ainda não vi, mas pretendo ver, ‘Eliezer Batista’. O documentário sobre o pai do empresário Eike Batista tem o subtítulo de ‘O Engenheiro do Brasil’. Será mera coincidência? Aplicando princípios básicos da luta de classes, temos aqui representações do capital e do trabalho – um trabalho que, espero, seja mais decente de representar do que aqueles empresários, de diversas áreas, que foram coniventes com a ditadura. Não vejo muita gente falando de ‘Eliezer’. Quero ver o filme e, a propósito, ‘O Filho do Brasil’ tem a cena do sindicato em que Lula – que será chamado mais tarde de ‘traíra’ por companheiros mais radicais – diz que não é contra patrões, porque eles, afinal, ‘pagam nosso salário’. De novo, o post está longo. O último break.