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Cultura » ‘Lula’ – o filme (1)

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Luiz Carlos Merten

29 Novembro 2009 | 13h20

Fui rever ‘Lula, o Filho do Brasil’, ontem à noite, na sessão que o Sindicato dos Metalúrgicios de São Bernardo promoveu para o presidente. Lá estavam Lula e dona Marisa, que também assistiu de novo ao filme (já o tinha visto na abertura do Festival de Brasília). Lá vou eu falar de ‘Lula’, o filme, mais uma vez. Gostei mais ainda do que já havia gostado antes – da cena do comício em Vila Euclides, um tour de force do qual, sinceramente, não julgava o diretor Fábio Barreto capaz, e de outra cena de tom completamente diverso. Imagino que forneço munição a quem quiser me analisar, psicanaliticamente (mas não sei por que isso seria relevante, é verdade). Há um breve momento que me encanta em ‘Malena’, de Giuseppe Tornatore. É a ereção do menino, o plano sobre sua calça curta que se avoluma, quando ele vê passar a sedutora Monica Bellucci. Aquele êxtase vai durar a vida toda e terá seu desdobramento no desfecho, quando ele vê Malena passar de novo, agora de braço com o marido, que voltou da guerra justamente sem o outro braço. Malena, a prostituída, é, para Tornatore, a própria Itália. A dignidade do marido e dela é uma coisa que me cala fundo. No ‘Filho do Brasil’, me encanta aquele beijo que o jovem Lula rouba da garota (e ela retribui, depois). Não tenho lido o que se escreve sobre o filme porque… Porque de maneira geral não leio mesmo o que os outros escrevem. Sorry, mas não tenho interesse em saber o que pensam meus colegas e a verdade, pelo que contam, é que eles quase não se têm manifestado sobre o filme. As análises demolidoras têm sido mais de analistas políticos e quetais. Mas eu li a chamada na capa de ‘Veja’. Como era mesmo? Sei lá, o filme expurga fatos, tece uma biografia ideal, é isso? Bom, expurgar fatos faz parte de qualquer biografia, filmada ou não. A importância acordada aos episódios vai depender de quem assina. Digamos que Diogo Mainardi, colunista de ‘ Veja’ – o cita porque, afinal, é roteirista, ou foi, trabalhando com o irmão cineasta –, fosse fazer a cinebiografia de Lula. Imagino que ele recontaria o que Fábio conta de outro ângulo. Poderia até filmar, hipoteticamente, o Lula presidente, no julgamento da história, debruçando-se sobre o próprio passado para tentar descobrir onde perdeu a conexão. Estou falando do ponto de vista das pessoas que gostariam de ver na tela o que o filme não mostra. É pertinente, mas eu tenho a impressão que a parte retratada no filme, ninguém – nem o próprio Lula – conseguiria desmontar da história (com H). É curioso, só como informação. O filme termina no começo dos anos 1980. O espectador que for ver ‘Cidadão Boilesen’, de Chaim Litewski, vai descobrir o que, na mesma época, estava fazendo parte da imprensa. É muito instrutivo. É assim mesmo, comparando dados, que a gente muitas vezes forma opinião, a menos que se aceite ser manipulado por alguém que pense por nós. O post está longo. Vou fazer um break e volto daqui a pouco.