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Cultura » ‘Lula’ lá? Não, ‘Lula’ fora

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Luiz Carlos Merten

19 Janeiro 2011 | 16h40

Torcia para que ‘Lula, o Filho do Brasil’ ficasse entre os nove finalistas indicados para o Oscar de filme estrangeiro, mesmo não botando fé de que isso fosse ocorrer. Para mim, seria uma chance de o filme de Fábio Barreto ser reconhecido pelas qualidades que acho que possui. A lista acaba de sair e ‘Lula’ está fora, mas o francês ‘Des Hommes et des Dieux’, de Xavier Beauvois, que todo mundo dava como certo, também ficou fora. Entraram, entre outros, ‘In a Better World’, de Susanne Bier, da Dinamarca, que acaba de ganhar o Globo de Ouro da categoria; ‘Biutiful’, de Alejandro González-Iñarritu, do México, que estreia na sexta aqui no Brasil; o espanhol ‘También la Lluvia’, de Iciar Bollain, que vi em Paris (com o título de ‘Même la Pluie ne Nous Appartient Plus’, Até a Chuva não Nos Pertence Mais – gostei); e o argelino ‘Fora da Lei’, de Rachid Bouchareb, que ainda está em cartaz na cidade e eu espero que a pré indicação dê uma sobrevida ao filme. A França deve ter tido um choque e terá, maior ainda, se Bouchareb ficar entre os cinco, após a exclusão de Beauvois. Num post anterior, falei da dificuldade que os franceses têm de lidar com tragédias históricas como o colaboracionismo e as guerras coloniais. A direita francesa demonizou ‘Fora da Lei’ tanto quanto a crítica se sentiu obrigada a avalizar ‘Des Hommes’, depois que o filme fez, sei lá, 4 milhões de espectadores e foi um dos êxitos do ano. Não consegui deglutir muito bem o filme de Beauvois, que não me parece essa grande obra de arte decantada até por ‘Cahiers du Cinéma’. No meu imaginário, terminei fazendo uma ponte com ‘O Diálogo das Carmelitas’, de R. P. Bruckberger e P. Agostini, de 1960/61, sobre freiras levadas ao cadafalso durante a Revolução Francesa, exatamente como os frades de ‘Des Hommes’ são hoje executados por fundamentalistas islâmicos. Há 60 anos, em plena erupção da nouvelle vague, o academicismo de ‘O Diálogo’, o que parecia sua caretice religiosa – no momento em que a nova onda celebrava a revolução dos costumes que haveria de marcar a década de 1960 – fez com que toda a crítica se voltasse contra o filme de Bruckberger e Agostini, mas eu guardo uma lembrança forte principalmente do elenco feminino (Jeanne Moreau, Alida Valli e Pascale Audret). A cena final, das carmelitas que vão cantando a caminho da morte, é muito parecida com o fecho de ‘Des Hommes’ – não acredito, honestamente, que seja mera coincidência. De volta a Bouchareb e seus atores, houve muitas manifestações contra eles, desde que o filme passou em Cannes, no ano passado. Em Paris, entrevistei na segunda-feira Sami Boudjila, um dos atores de ‘Fora da Lei’ (é o irmão politizado, que se integra ao movimento pela independência da Argélia), e falamos justamente sobre isso. O assunto político dominante da França no fim de semana foi a entronização de Marine Le Pen como dirigente máxima da Frente Nacional, após o afastamento de seu pai, Jean-Marie Le Pen. Marine já tem 18% das intenções de votos para presidente. Esse eleitorado deve estar querendo o sangue dos votantes da Academia, os ‘velhinhos’ que selecionam os candidatos para melhor filme estrangeiro.

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