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Cultura » Loucura, alguém falou em loucura?

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Luiz Carlos Merten

14 Abril 2009 | 14h04

Outro dia, falando sobre ‘O Equilibrista’, adotei o ponto de vista de… – quem foi mesmo que disse isso num comentário? –, segundo o qual o documentário de Herzog que também concorria ao Oscar da categoria, ‘Encounters at the End of the World’, era melhor. Por que falo agora disso? Meu colega Jotabê Medeiros (re)viu ontem ‘Aguirre, a Cólera dos Deuses’. Vou pegar carona nas impressões do Jota. Ele achou o filme de 1972 o mais louco que viu em muito tempo. Aquela gente toda devia estar cheirada, madada ou, de qualquer outra maneira, muito doida, acrescentou. Uma cena que o Jota descreveu passou inteira na minha mente – Klaus Kinski, ensandecido, no desfecho, num monólogo à Hamlet, só que em vez de uma caveira ele pega na mão um macaco que parece não gostar nem um pouco de estar ali e tenta mordê-lo. A tomada é impressionante. Supostamente, os companheiros de Aguirre na mítica busca do Eldorado estão mortos naquela jangada. Sobre seus corpos passam centenas de macacos ferozes. As cenas eram típícas do Herzog da época, que gostava de ir ao limite com seus atores para refletir sobre a irracionalidade do mundo. Muitas cenas que Herzog filmou com Klaus Kinski, pai da bela Nastassia, são inesquecíveis. Os dois mantiveram uma relação tumultuada. Brigavam feito cão e gato nos sets de filmagens, mas Herzog não abriu mão de KK, porque sabia que seu cinema precisa(va) de atores com aquela intensidade cênica. O documentário ‘Meu Melhor Inimigo’, sobre a parceria dos dois, é, quanto a isso, muito elucidativo. Não sei de vocês, mas o cinema de Herzog sempre me atraiu muito, mesmo quando, eventualmente, eu não gostava dos filmes dele. Anões, solitários, conquistadores, vampiros – seus personagens marginais são o resultado de uma grande imaginação romântica e transgressora. A jangada de Aguirre com seus macacos, os aborígenes de ‘Onde Sonham as Formigas Verdes’, o enigma de Kaspar Hauser. Este último é meu Herzog preferido, e olhem que o tema é muito próximo do de ‘O Garoto Selvagem’, que também é o Truffaut do meu coração. Truffaut é austero, rosselliniano. Herzog é excessivo e a selva que ele filma nunca foi mais luxuriante. Ruy Guerra era um dos atores, lembram-se? Em seu verbete sobre Herzog, Jean Tulard, no ‘Dicionário de Cinema’, diz que a loucura que permeia o cinema do autor culmina em ‘Fitzcarraldo’. Tulard considera ‘Fitzcarraldo’ uma resposta a ‘Aguirre’. Acho que o filme tem cenas impressionantes, mas em matéria de obsessão – e navio carregado pelo seco – prefiro o John Huston de ‘Fúria Selvagem’ (Man in the Wilderness), um grande Richard C. Sarafian, com Richard Harris. Permitam-me divagar mais um pouco. Em ‘Aguirre’, naquela jangada, KK arremessa longe o macaco. Hoje em dia, Herzog seria caçado (e cassado) pelas associações protetoras de animais. Como visionário, ele nunca foi politicamente correto (ainda bem). O último plano de ‘Bokassa I’ mostra outro macaco – fumando. Não sou fumante, detesto cheiro de cigarro, mas o plano é muito interessante pela dupla transgressão. Não sei se Herzog não está ficando obsoleto pela concorrência da própria realidade. Antes, ele podia ser louco. Hoje, o mundo ficou muito mais louco. O Muro de Berlim era considerado uma aberração ligada ao comunismo. Hoje em dia, todo mundo quer construir muros para confinar favelas, os pobres, um país inteiro (Bush Jr.não queria fazer um muro na fronteira mexicana?). E o que é essa cruzada contra o fumo senão restrição das chamadas ‘liberdades individuais’, tão celebradas como esteio do anti-comunismo? Estou misturando as coisas, mas espero estar deixando algum material para reflexão de vocês. Além da vontade de rever os grandes filmes de Herzog, que são parte destacada, como não?, da história do cinema.