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Luiz Carlos Merten

04 Setembro 2007 | 13h21

No evento Loucos por Cinema de dois anos atrás, no Sesc Pompéia, já havia uma maquete da Cinelândia paulistana, mas ela agora foi ampliada, pegando mais prédios e ruas que mostram como era antigamente o Centro da cidade, com todas aquelas salas. A maquete traça um eixo na Av. São João que vai da Conselheiro Crispiniano, no Largo Paissandu, até a esquina da Timbiras, onde antes ficava o Metro (e hoje funciona uma igreja evangélica). Em frente ao Paissandu, existe hoje uma sala pornô, o Art-não-sei-das-quantas, mas há exatamente 70 anos, em 1937, o cinema ali construído não era só um dos mais chiques da cidade, mas levava o nome de UFA. Não por acaso, era o grande estúdio do cinema alemão e a sala na São João foi criada justamente para veicular a produção germânica, em pleno nazismo. Máximo Barro, que fez a documentação do espaço urbano para construção da maquete, diz que o UFA era o cinema nazista de São Paulo e eu agora divago – será que é por isso que todo sábado à tarde se reúnem ali em frente os punks paulistanos? Será alguma coisa inconsciente naquela garotada que, quando eu passo por ali, me parece tanto uma geração perdida? Mas, enfim, de volta ao Máximo, ele tem uma foto que vale como registro de época, mostrando a passagem do zepelim por São Paulo justamente do ângulo do antigo UFA, no ano da inauguração do cinema. No outro extremo, o Metro, na esquina da Rua Timbiras, também foi inaugurado em 1937, mas enquanto o UFA da maquete exibe Boccaccio – uma produção nazi-fascista que nada tem a ver com o filme italiano quase homônimo, Boccaccio 70, do começo dos anos 60 –, o Metro exibe Broadway Melody, de Roy Del Ruth, não o original de 1929, mas a primeira seqüência, de 1936 (surgiram mais duas, em 1938 e 40). Fiquei um tempão rondando a maquete, que me fez viajar. É tudo tão perfeito, as fachadas dos cinemas, os cartazes, o público, os carros. O Sesc São Paulo reconstitui, ali, uma São Paulo que o vento levou. E o evento, claro, até para honrar o nome, tem filmes, muitos filmes – da Vera Cruz à Retomada. A lista é tão extensa que não teria como reproduzir aqui os três meses de Loucos por Cinema no Sesc Santo André (a programação completa deve estar no site, para quem quiser pesquisar). Mas quero registrar, aqui, ainda, uma ou duas coisas. Máximo Barro, professor na FAAP, é autor do livro Caminhos e Descaminhos do Cinema em São Paulo. Segundo me informou, ele possui a lista detalhada de todos os filmes lançados em São Paulo nos anos 30 e até 1941. Todos! Em 1954, quando se completavam 400 anos da fundação da cidade, houve um Festival Internacional de Cinema que trouxe grandes nomes do cinema de todo o mundo à cidade. Naquele ano, o paulistano consumia tanto cinema que, só na capital, afirma o professor Máximo, citando uma pesquisa da época, foram vendidos mais ingressos do que na Suécia inteira, no mesmo período. Loucos por Cinema pode ter esse aspecto nostálgico, mas debates e oficinas vão mostrar que a paixão pelo cinema permanece viva. Eu sei, vocês sabem. Toda geração tem seus loucos por cinema.

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