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Louco (no singular) por Cinema

Luiz Carlos Merten

04 Setembro 2007 | 14h13

Em maio de 1995, Carla Camurati estava reinventando o cinema brasileiro. Após a política de terra arrasada para a cultura do malfadado (e malfalado) Collor, quando o cinema nacional foi praticamente varrido do mapa, Carla iniciou, em janeiro daquele ano, um trabalho de formiguinha, lançando, no Brasil inteiro, sua Carolta Joaquina. O filme fez sucesso de público – existem críticos que odeiam – e virou o marco zero da chamada ‘Retomada’. Em maio, há 12 anos, estreou Louco por Cinema, longa de André Luiz de Oliveira sobre a loucura que é fazer cinema no País. Muitos filmes têm sido feitos sobre o assunto, de Mater Dei, dos irmãos Mainardi (argh!), até Saneamento Básico – O filme, de Jorge Furtado. Confesso que tenho um carinho especial por Louco por Cinema, mas isso faz parte do carinho maior, que tenho pelo diretor. André Luiz de Oliveira fez, em pleno udigrudi, um filme muito louco chamado Meteorango Kid. Depois, quase clássico, fez um filme que sumiu na noite dos tempos, mas pelo qual o louco sou eu – se a memória não estiver me falhando, não existe nada mais belo nem misterioso do que A Lenda de Ubirajara, baseado no romance de José de Alencar, com Tarcísio José Alves e Ana Maria Miranda (a futura escritora). Oliveira filmou os sons da floresta, a oralidade do índio. A Lenda de Ubirajara é de 1975, um ano depois de Uirá, Um Índio em Busca de Deus, que Gustavo Dahl realizou a partir de um argumento de Darcy Ribeiro, com fotografia de Rogério Noel, que não teve tempo de virar mestre fotógrafo (como Mário Carneiro) porque morreu prematuramente (mas era bom, o cara). São os dois mais belos filmes sobre índios no cinema brasileiro. Passaram-se 20 anos até que André Luiz de Oliveira retornasse com Louco por Cinema, e o louco era Nuno Leal Maia, sugestivamente chamado de Maluco Beleza e interno num hospício, onde ganhava apoio de uma médica para realizar seu filme. O Maluco seqüestrava a comissão de direitos humanos em visita ao hospital para chantagear o governo, forçando-o a investir dinheiro na produção. No processo, ele precisava se livrar da influência de outro diretor, chamado Eugênio e a síndrome de Eu-Gênio assola o cinema do País desde Mário Peixoto, Glauber Rocha etc. Tirei o André Luiz de Oliveira do baú porque me parecia absurdo ficar falando sobre Loucos por Cinema sem fazer referência ao Louco (no singular). Não sei se saiu em DVD, mas Oliveira, que não consegue dinheiro para um projeto grandioso – Viva o Povo Brasileiro –, lançou, em 1998, um livro com o roteiro de Louco por Cinema e alguma coisa mais. Como o filme era extremamente autobiográfico, o diretor acrescentou um testemunho de geração, fazendo em livro o que Carlos Alberto Prates Correia faria, no cinema, no ensaio poético Castelar e Nelson Dantas no País dos Generais, que venceu em Gramado, em agosto. André Luiz de Oliveira – alguma coisa está me dizendo que me equivoco e ele é André Luís Oliveira, sem Z nem de –pertence à turma que resistiu à barra-pesada do regime militar pela via do desbunde e da aventura do autoconhecimento, o que incluía viajar nas drogas. Tudo isso permeia Louco por Cinema, seu filme mais pessoal, que eu respeito, mas prefiro A Lenda de Ubirajara.