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Lou!

Luiz Carlos Merten

15 Janeiro 2018 | 09h11

PORTO ALEGRE – Cá ainda estou. Volto amanhá para Sáo Paulo, para assistir à noite à cabine de The Post. Queria ter revisto ontem O Quimono Escarlate, de Sam Fuller, no ciclo Los Angeles por Ela Mesma, da Cinemateca Capitólio, mas a sessáo era às 2 da tarde, meu almoço atrasou e preferimos, Doris e eu, ver, um pouco mais tarde, o Lou, de Lou Andreas Salomé, no Guion, talvez o mais antigo cinema de arte da cidade. Náo gostei da sala, o estacionamento ao lado é um assalto – diz que tem desconto para usuários do cinema, mas eu quis tomar um café na saída, para conversar, ultrapassamos o limite tolerável e o funcionário cobrou a tarifa plena. Na noite anterior, havíamos ido ao Shopping Iguatemi para ver o Star Wars. Doris deixou o carro no estacionamento externo. A sessáo terminou passado da meia-noite, o shopping estava fechado e ficamos, um monte de pessoas, andando feito almas penadas em busca de uma saída para o pátio, sem nenhum funcionário ou segurança para dar indicações. É uma desatenção com o usuário, e num shopping metido a besta… No estacionamento, foi a mesma coisa. Não reclamo do preço, mas do desprezo pelo cliente. E quer dizer que para filmes longos, com as mais das duas horas tradicionais, não tem desconto? Caraca! Enfim, Lou Andreas já havia sido personagem de um polémico filme de Liana Cavani, Além do Bem e do Mal, centrado no triângulo entre Nietszche, Paul Rée e ela. A diretora, outra mulher, é Cordula Kablitz-Post. Conta sua história em flash-back. Em plena ascensão do nazismo, um biógrafo reconstitui, com a própria Lou, sua trajetória de escritora, feminista e psicanalista. Lou e seus homens – Nietszche, Rée, Rilke. gostei de ter visto o filme, esse retrato de uma mulher libertária, à frente do seu tempo, mas é curioso – como a Mulher-Maravilha, que agrega, mas quem resolve a parada é sempre o homem, Lou é mais referida como musa do que por seus méritos, e no limite, no filme, quem a nomeia é um homem, que dá a Louise o nome de Lou, e por sinal a estupra, o que só sabemos no divá de Freud. Achei tudo isso muito forte e queria saber se o filme estreou em Sáo Paulo sem que eu tivesse me dado conta, mas só encontrei na rede crítica no Globo. Abri, era do Marcelo Janot. Bastou a linha de apoio para o Bonequinho sentado – personagem transgressora, filme comportado. A mesma crítica de Inácio Araújo para O Jovem Karl Marx na Folha – personagem revolucionário, filme conservador. Ai, meu Macunaíma, que preguiça. Achei particularmente intrigante, e nada conservador, um recurso de que se vale a diretora. Nas externas, ao invés de grandes reconstituições de época, ela usa fotos, e dentro delas, desse mundo estratificado, recorre à computacáo gráfica para mostrar, sempre em movimento, a figura da Lou. Creio que vai nesse recurso uma ousadia estética – e até política – não devidamente apreciada pelo Janot, como o Inácio também minimizou a importância da palavra no debate do jovem Marx, isso para nÃo falar na montagem final, da música, no longa de Raoul Peck, com sua ideia (utópica?) de que a luta continua, o que nÃo tem nada de conservador. Depois da Lou assisti, à noite, na Netflix – minha estreia na provedora – o Bright de David Ayer. Sobre esse, vou ter de falar depois.