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Cultura » Losey, Preminger, Comencini e a capital da cinefilia

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Luiz Carlos Merten

20 Abril 2007 | 11h37

Quando garoto, no Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, tive uma professora de francês, chamada Maria José, que estimulava a gente a fazer teatro na língua de Corneille. Como ela achava que eu tinha a pronúncia boa, uma vez me fez representar o Pequeno Príncipe, numa encenação escolar. Era uma coisa tão louca que a quem fazia a Raposa era Zaíra Acauan, uma grande rádio-atriz gaúcha, que também lecionava matemática no Julinho. E lá fui eu recitar o texto de Saint-Exupéry. ” Tu te tornas responsável por aquilo que conquistas!” Maria José também me fez recitar poremas “Sous le pont Mirabeau, coule la Seine et nos amours!” Paris, naquela época, era a coisa mais distante do mundo, para mim. Depois, fui lá, na Ponte Mirabeau, ver passar o Sena. O mundo mudou, imagino que, hoje, Nova York seja mais atraente, como pólo cultural, mas Paris não perde a majestade. Uma capital que tem o Louvre, o Sena, a Torre Eiffel – como vai perder o encanto? E Paris continua sendo a capital da cinefilia, o verdadeiro centro do mundo para os malucos por cinema. Além das numerosas estréias e novidades que os circuitos comerciais proporcionam, nenhuma outra cidade tem uma cadeia de salas de art et essai tão forte (e diversificada). Meu cinema de arte favorito é o Art Écoles, na Rue Champollion, próximo à Sorbonne. E, agora, segurem-se porque vou contar o que vi neste dia que fiquei em Paris (cheguei na quarta, no fim da tarde, e embarquei ontem às onze da noite para o Brasil). Accident, de Joseph Losey, com roteiro de Harold Pinter, está sendo lançado em cópia nova. No Brasil, chamou-se Estranho Acidente. Fui rever, claro, e agora tudo o que gostaria é de convencer o André Sturm, da Pandora, ou o Jean-Thomas, da Imovision, a comprarem os direitos deste grande filme. E o elenco, meu Deus! Dirk Bogarde, Stanley Baker – os dois atores-fetiches de Losey -, Delphine Seyrig, Michael York, Vivien Merchant. Deixo por último a Jacqueline Sassard, que foi mulher do Zurlini. No mesmo cinema, mas em outra sala, há uma revisão da obra de Otto Preminger que me permitiu rever um filme que sempre foi cult para mim. Bunny Lake Desapareceu, de 1965, foi o último grande filme de Preminger. Na época, a história intimista, seguindo a vertente noir de Laura, encerrava a fase dos grandes filmes políticos (Exodus, Tempestade sobre Washington, O Cardeal, A Primeira Vitória). Sempre achei os créditos de Bunny Lake (de Saul Bass) os mais criativos do cinema e ontem me lavei revendo o filme. Afinal, Bunny Lake, o bebê de Carol Lynley, existe ou é uma fantasia de uma mulher perturbada? Que filme! E o Laurence Olivier… Que gênio! Ia rever Tempestade sobre Washington, que não revejo há tempos e do qual gosto muito, mas aí havia uma homenagem a Comencini e eu não resisti. Revi L’Incompresso, aliás, L’Incompris, aliás Quando o Amor É Cruel. Preciso dizer que chorei? Foi apenas um dia em Paris, mas valeu a pena. Sempre vale a pena, quando a alma não é pequena, como dizia o Poeta.