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Luiz Carlos Merten

28 Agosto 2009 | 15h19

Houve um tempo, no começo dos anos 70, em que o novo cinema mexicano tomou de assalto as telas brasileiras. Arturo Ripstein, Alberto Isaac, Luis Alcoriza, Jorge Fons, Sergio, como era mesmo, Olhovich? Era louco por um filme desse último, ‘La Muñeca Reina’, uma obra decadentista e mórbida, que me apaixonava pelos mesmos motivos pelos quais talvez detestá-la. Com base na história de Carlos Fuentes, ‘A Boneca Rainha’ conta a história de um homem obcecado por um amor de infância e que, por causa disso, mergulha no mais puro horror. ‘Muñeca Reina’ é da mesma estirpe fantástica que ‘Santa Sangre’, de Alejandro Jodorowsky. Que fim terá levado aquele Sergio? Nunca mais ouvi falar nele e, nas sucessivas vezes em que estive na Cidade do México, tentei sem êxito encontrar o DVD do filme, para exorcizá-lo, conferindo se é bom mesmo ou se foi algum delírio de juventude(embora naquele tempo eu já estivesse com 30 anos, ou quase). Mas por que estou me lembrando disso? Porque Jorge Fons fez, em 1974, ‘Los Cachorros’, adaptado do romance de Mario Vargas Llosa, contando a história de um homem que foi mutilado na infância, perdendo o pênis devorado por cães, e que passa pela vida amargurado, incapaz de se relacionar com as mulheres que ama – como Edward Mãos de Tesoura, com aquelas mãos que lhe permitem criar a beleza, mas não acariciar o objeto de seu desejo. Tim Burton já foi tão bom… Estava ontem tomando café, como sempre fazemos, pela manhã. Eliana Souza, nossa pauteira no ‘Caderno ”, Leo Brioto, Ubiratan Brasil e eu. A gente fica tomando café e jogando conversa fora, com a TV ligada ao fundo. Uma notícia chamou-me a atenção. ‘Los Cachorros’ em versão ‘real’. Um menino nordestino foi submetido a uma operação revolucionária. Como o herói da ficção, ele teve o pênis decepado por um cachorro. Criado na pobreza, no Nordeste, virou motivo de chacota da garotada – criança consegue ser cruel, muito cruel. Ele começou a se isolar do mundo. Desistiu da escola, mas não desistia de ser homem. Não queria virar a mulherzinha do grupo. Essa é uma história de amor materno. Sua mãe, que não é uma mulher esclarecida, mas, como sertaneja, é uma forte, não desistiu. Veio para o Sul maravilha e conseguiu apoio, não sei de que hospital universitário, para tentar resolver o problema do filho. O caso é raro e a universidade trouxe um especialista da Europa. Fizeram uma operação para dotar o menino de um pênis. Cortaram uma fatia do seu abdomen, como se fosse uma bolsa de canguru, e enrolaram para formar o cllindro peniano. Outras cirurgias, que ele ainda terá de fazer, poderão ajudá-lo a desenvolver a função erétil, a ter relações… O repórter ouviu o garoto na cama de hospital. A cara foi preservada, mas deu para ouvir sua voz, cheio de esperança. Vai poder voltar a estudar, agora tem um futuro. Não aguentei. Chorei. Vocês podem imaginar que a vida desse guri nunca vai ser fácil, mas considerando-se quão destruída já estava… Ninguém merece sofrer tanto. Não sei nem que lições tirar dessa história – o amor da mãe? A tenacidade do menino? A afirmação da ciência? Só sei que ela é ‘bigger than life’ e me trouxe a lembrança de José Alonso e Helena Rojo no filme antigo. Ninguém merece sofrer tanto, repito. Me lembro agora de outro filme – o cinema sermpre midiatizando minhas emoções –, ‘Reencontro do Amor’ (Pete’n’Tillie), de Martin Ritt, de 1972. A mãe – Carol Burnett, que foi indicado para o Oscar pelo papel – ergue o dedo contra o céu e brada contra Deus, porque seu filho está morrendo de câncer. Deus injusto, cruel. Estava folheando no outro dia o volume ‘A Descoberta do Mundo’, que reúne escritos de Clarice Lispector. Há uma série de três textos com a entrevista que ela fez com Alceu de Amoroso Lima, um dos maiores pensadores católicos da história desse País. Dr. Alceu, como era chamado, foi um guerreiro da luta contra a ditadura. O velho não se dobrava diante do trinômio tradição, família e propriedade. Uma frase dele na entrevista me tocou (marcou?) – ‘Só senti a verdadeira liberdade depois que voluntariamente me submeti à Fé católica.’ Gostaria de ter essa fé ilimitada, que exige (ou aceita) submissão. Sou mais de bradar contra. Imagino que essa mãe tenha tido momentos da mais profunda desesperança, mas se tocou que, pelo bem do filho amado, tinha de arregaçar as mangas. Para fazer isso, ela tinha de confiar. Jesus, manso e humilde de coração, fazei meu coração semelhante ao vosso. Puta história. Terrível, trágica, mas bela. O que não sei, mas espero, de todo coração, é que tenha final feliz.