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Los Angeles por ela mesma

Luiz Carlos Merten

13 Janeiro 2018 | 11h13

PORTO ALEGRE – Cá estou, desde ontem. Cheguei e, à tarde, fiz minha estreia na Cinemateca Capitólio, que apresenta um ciclo sobre a representação de Los Angeles no cinema. Fui ver Curva do Destino, o cultuado Detour, de Edgar G. Ulmer, com Tom Neal como um homem que cai na estrada e a vida dele vira uma sucessao de equívocos e infortúnios. Um cara lhe dá carona, morre ao seu lado, dormindo, quando ele assume a direção do carro e o herói fica apavorado, pensando que vão acusá-lo de assassinato, mas ocorre ainda pior. Neal cai nas mãos de uma mulher fatal que conhecia a suposta vítima, e a partir daí ela, que não vale nada, transforma sua vida num inferno. Homens fracos nas mãos de mulheres fortes como a personagem de Ann Savage, as temíveis femme fatales, sempre deram a tonica nesse estilo de cinema, mas é curioso que ninguém faca a revisao do noir à luz do empoderamento feminino porque a mulher, nesses filmes, na verdade, incorpora o pior do homem, para se afirmar com as mesmas armas deles. O austríaco Ulmer, que fez teatro com o lendário Max Reinhardat, pertence à geraçao de diretores europeus que foi para Hollywood fugindo do nazismo e, com sua bagagem expressionista, imprimiu uma marca à produçao de filmes baratos, nos quais a forma e a visao sombria de mundo configuravam a autoria. Como nos filmes de Fritz Lang, a noçao do destino trágico é muito forte no personagem de Neal e o paralisa, terminando por derrotá-lo muito mais, até, que a mulher. Nao conto nenhuma novidade ao dizer que os jovens da nouvelle vague, nos anos 1950 e 60, querendo fazer cinema de autor, e com recursos limitados, beberam na fonte desse cinema hollywoodiano B. Jean-Luc Godard chegou a dedicar Acossado à Monogram, um estúdio norte-americano que financiava o que os franceses chamam até hoje de cinq sous, filmes feitos com pouquíssimo dinheiro. Foi bom rever Detour e constatar quanta gente grande copiou, na cara dura, o pequeno Ulmer, cuja reputaçao está ligada a nichos do cinema de genero – noir, terror, western. Agora à tarde tem mais, e pretendo ver um filme que, esse sim, desconheço, exceto pela fama – Alma Torturada, de Frank Tuttle, com a dupla Alan Ladd/Veronica Lake. De novo a Los Angeles proibida, a impotencia dos homens e a mistificacao das mulheres, e a fotografia contrastada em preto e branco. Desculpem-me, mas nao trouxe o laptop e estou escrevendo em um emprestado, sem acentos – para fazer o til, tenho de apertar simultaneamente em trës teclas, o que nao só é difícil, como me é quase impossível. Só nao quero deixar de postar durante esses trës ou quatro dias que fico aqui – volto na terça para assistir, à noite, ao Spielberg, The Post. E o velho Capitólio da minha juventude virou uma linda Cinemateca. A sala é ótima. O ciclo Los Angeles por ela mesma – Hollywood – só pode ser resultado de uma parceria com a Cinemateca de Portugal, porque as legendas se referem, o tempo todo, às miúdas e o pronome é sempre o tu, com a concordancia correta, ao contrário do gauchës. Agora à tarde, Frank Tuttle, lá vou eu.