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Cultura » Lord Elia, ou uma carta para Martin

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Luiz Carlos Merten

08 Novembro 2010 | 09h37

Dois dias sem dar notícias. Vamos lá – por onde começar? Pela carta de Martin Scorsese a Elia Kazan? Pela dose dupla de Albert Camus, ‘Calígula’, que reestreou no Teatro Vivo, e ‘O Estrangeiro’? Pelo deslumbrante ‘As Quatro Voltas’, que vi, enfim, no cinema, depois de havê-lo amado na tela acanhada da TV? Ou pelo horroroso ‘Um Parto de Viagem’, que fui ver no sábado à noite? O cinema (PlayArte Bristol) não estava lotado e eu tive o azar de me sentar em frente a um casal de velhos, que o Diabo os carregue, que conversavam (baixinho) como se estivessem na sala de casa. Bem, estou começando pela comédia de Todd Philips. Dava para rir em ‘Se Beber, não Case’, mas o novo filme me pareceu uma apropriação indébita de ‘Antes Só do Que Mal Acompanhado’, que John Hughes havia feito há mais de 20 anos – 1987 ou 88 –, com Steve Martin e John Candy. No filme antigo, os personagens compartilhavam carros, trens e aviões na tentativa de chegar em casa para o peru do Thanksgiven. Aqui, Robert Downey Jr. quer chegar em casa para o parto da mulher, mas cruza com Zach Galifianakis e sua vida vira um inferno. Até poderia haver um subtexto interessante, porque toda a confusão começa quando o tal Galifianakis fica falando em terrorismo dentro do avião e isso desencadeia uma sucessão de equívocos. O cara, que eu confesso que não conhecia, consegue ser mais chato do que John Candy e, talvez não tenha entendido muito bem – o filme é difícil, vocês sabem –, mas ele caminha se requebrando, com aquele cachorro a tiracolo, como se fosse uma ‘senhôra’. Viadagem reprimida? Pode ser? O cara masturba-se numa cena de gratuidade abominável, mas o casal de velhos na poltrona de trás, provavelmente mais libertário do que eu, ria como se estivesse assistindo a ‘Um Convidado bem Trapalhão’. Não, não foi uma boa comparação. Tenho a impressão de que eles não achariam graça na comédia de Blake Edwards com Peter Sellers. Mas, enfim, para desanuviar o post – três dias fora e volto irado –, deixem-me falar de algo de que gostei (muito). ‘Carta para Elia’. Já nem me lembro mais se li ou me disseram, mas Godard teria afirmado, certa vez, que a grande crítica de cinema deveria ser filmada. Scorsese fez mais do que escrever uma carta para Kazan. Fez talvez a mais bela crítica já escrita sobre o autor. O que ele fala sobre o que sentiu assistindo a ‘Vidas Amargas (East of Eden, de 1955) é maravilhoso. Ele se projetava em James Dean, era o personagem de James Dean, cheio de ressentimento pelo irmão mais velho. Eu também era assim, em Porto, sentia aquela mesma angústia, a mesma revolta. E quando Marlon Brando, no carro, diz a Rod Steiger que poderia ter tido classe, Deus – se aquilo não é a maior interpretação masculina da história do cinema, é algo bem próximo. E Scorsese assume – Kazan foi como um pai para ele. Mostra cenas de ‘Terrra do Sonho Distante’ (America, America), o filme que mais tenho vontade de rever na minha vida. Cada vez que aquele papa, João Paulo II, beijava o solo nos lugares em que chegava, eu me lembrava de Stathis Giallelis, de Stavros, que acredita que a América vai purificá-lo e, por isso, ele se degrada e aceita todo tipo de compromisso para chegar lá. E Stavros beija o solo, beija o chão da América. Por que Scorsese sentiu essa vontade tão visceral de fazer esse filme? Scorsese foi quem entregou o Oscar honorário para Kazan. Talvez Elia não necessitasse daquele prêmio. Afinal, ganhou duas vezes o Oscar de filme e direção – por ‘A Luz É para Todos’ e ‘Sindicato de Ladrões’. Scorsese sentiu naquela noite a hostilidade de metade da academia, recusando-se a se levantar para honrar um dos grandes diretores do cinema, o homem que fez alguns dos filmes mais fortes e críticos da história do cinema norte-americano. Sei que é uma coisa completamente subjetiva, mas peguei a maior bronca de Nick Nolte, de Jeff Bridges, da imagem deles sentados, com suas caras emburradas. Talvez, no Brasil, em circunstâncias análogas, eu não me levantasse para honrar… Quem? Pensei muito nisso no último Oscar, quando Jeff Bridges foi aplaudido de pé. Nem ele era o melhor ator do ano nem o filme possuía qualquer significado especial. A celebração da mediocridade, do médio, não do muito bom, do excelente, do insuperável, pensei comigo, e me baixou uma tristeza. Conversei sobre isso com Michel Ciment, autor de um belo livro de entrevistas com Kazan. Ninguém era mais crítico do que ele (Elia) em relação ao seu testemunho perante a Comissão de Atividades Anti-Americanas, quando delatou antigos companheiros comunistas. No livro com a entrevista que concedeu a Ciment, Kazan conta do seu desgosto em relação ao stalinismo que dominava o Partido Comunista Americano e diz que sua delação teve um significado, afinal de contas, simbólico, porque todos os nomes que entregou já haviam sido delatados antes. O livro termina com o que Kazan gostaria que fosse seu epitáfio – “Não fiz tudo o que gostaria, não gosto de tudo o que fiz, mas essa é a minha vida.” Sempre comparei, no meu imaginário, mas sou eu, o gesto de Kazan, durante o macarthismo, com a covardia de Jim, da qual ele terá uma vida inteira para se arrepender, até virar lorde, por sua coragem, no belíssimo livro de Joseph Conrad, que virou um belíssimo filme de Richard Brooks, com Peter O’Toole. Scorsese fala das mulheres nos filmes de Kazan, de Eva Marie Saint (em ‘Sindicato de Ladrões’), de Lee Remick (em ‘Rio Violento’). Para Michel Ciment, Kazan contou que foi a ternura de sua mulher que o salvou, na tempestade da delação. Ele vivia possuído pelo ódio, pelo ódio por ele mesmo. Ela pacificou seus demônios, mas Kazan cumpriu o juramento que fez a si mesmo. Face à hostilidade de todos, jurou que nunca ia transigir com sua arte e que faria filmes ainda mais críticos sobre a sociedade dos EUA. Não tenho a menor paciência com os filmes recentes de Scorsese, mas respeito – e admiro – seu trabalho de preservacionista do cinema. Scorsese, um grande crítico? ‘Carta para Elia’ é a melhor e mais pessoal coisa que ele fez desde… ‘Touro Indomável’?

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