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Luiz Carlos Merten

15 Março 2011 | 15h23

Meu amigo Dib Carneiro foi ver ‘Lope’ e amou o filme de Andrucha Waddington. Achou muito bem feito, mas, para quem frequenta hoje os bastidores do teatro, o que o conquistou foi mesmo esse olhar sobre um novo mundo, ao qual o próprio personagem tem acesso. Lope da Vega, no filme, deixa de ser o guerreiro para ingressar no universo do teatro. O Dib, nos últimos anos, tem feito essa viagem, guiado pela mão segura de Gabriel Villela. Quando o encontrei, depois de ter assistido ao filme, o olho brilhava. O próprio Andrucha, na entrevista que me deu, disse que seu interesse pelo roteiro devia-se a essa descoberta, que o herói faz, de que está se lançando num território novo e trocando valores seguros por uma aventura que, mesmo sendo intelectual, não deixa de encerrar riscos. Andrucha acha que o roteirista e produtor espanhol Jordí Gasull o escolheu porque, como cineasta brasileiro, ele não sentia o peso da importância que Lope tem na cultura clássica da Espanha e poderia se aproximar do personagem sem reverência. Não sei se Andrucha viu um filme antigo, de Riccardo Freda, de 1963/64, que lhe recomendei, ‘O Magnífico Aventureiro’, sobre Benvenuto Cellini, com Brett Halsey. Foi o segundo de dois filmes de capa e espada que Freda fez com esse ator, tendo sido o primeiro ‘As Sete Espadas do Vingador’. Andrucha nunca tinha ouvido falar desse filme, mas tenho (quase) certeza de que Jordí Gasull, sim. No fundo de ‘Lope’, está a mesma ideia de um personagem, homem integral, capaz de encarnar o guerreiro, o amante, o artista. Lembro-me do filme antigo. Em duas ou três cenas, com economia de meios, Freda revelava o guerreiro, o amante e o artista. Imagino que esse ‘classicismo’ possa ser hoje deplorado por críticos que o achariam explicativo demais.. A propósito, sem querer polemizar com meu colega Luiz Zanin Oricchio, em sua crítica – que não li, vi só o título –, ele ressaltava que um pouco mais de paixão não faria mal a ‘Lope’. Às vezes, ouso dizer, a paixão (ou falta de…) está nos olhos de quem vê. O Dib, por exemplo, se apaixonou. Só para encerrar o post. Do elenco de ‘O Magnífico Aventureiro’ participava Norma Bengell, que, na época, fazia carreira na Itália. Que lembrança Norma terá de Riccardo Freda? Anselmo Duarte, que também trabalhou com ele – quando Freda veio filmar no Brasil –, não só guardava uma boa lembrança (ele havia sido escultor e crítico de arte e era homem de grande cultura, embora fizesse um cinema popular), como possuía uma mulher supimpa, a ex-Miss Itália Gianna Maria Canale, que Anselmo, garanhão notório… Laccia stare, Merten.