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Longe do Sunset Boulevard?

Luiz Carlos Merten

12 Maio 2009 | 07h56

PARIS – Fui ver ontem à tarde ‘Freaks’, que nunca havia visto no cinema. O cult de Tod Browning, de 1932, integra a programação que o Reflets Médicis dedica aos 100 mais belos filmes do mundo. Na França, ‘Freaks’ tem o subtítulo ‘La Monstrueuse Parade’ e é bem disso que se trata, uma parada de seres bizarros e/ou monstruosos, mas que o diretor resgata na sua muitas vezes patética humanidade, e é isso que faz a diferença dessa obra única. Queria emendar com ‘Viagens com Minha Tia’, o último Cukor, de 1972, com Maggie Smith, mas calculei mal o horário e não pude assistir ao filme, que me desapontou quando o vi, há 30 e tantos anos. Terminei vendo, depois de jantar, ‘Les Clairières de Lune’, de Igor Minaiev. Sinceramente, não me lembro se a mostra já exibiu algum filme dele – o anterior, ‘Loin du Sunset Boulevard’, por exemplo. Já existe aqui na França um culto a esse autor russo pós-comunista, que filma São Petersburgo como ninguém. O filme anterior dialogava com Billy Wilder (‘Crepúsculo dos Deuses’). Este dialoga com Visconti, ‘Vagas Estrelas da Ursa’, na medida em que conta a história de um incesto, desses dois irmãos que se reencontram após a morte da mãe e a fixação é da garota, que termina por envolver seu frágil irmão, que sonha ser escritor, numa espiral autodestrututiva para ambos. Em pleno comunismo, o cinema de Minaiev seria rotulado como decadente. O próprio Visconti, aristocrata de nascimento, sempre defendeu o ‘decadentismo’ que mais de um crítico condenava na sua fase final, marcada por um filme tão belo quanto ‘Violência e Paixão’. Não me empolguei com ‘Les Clairières’, mas a tristeza e falta de perspectivas dos personagens do autor não deixam de ter certo charme venenoso. O livro que o herói, na verdade um anti-herói, escreve é comparado a Chekhov e o jornalista com quem a irmã se casou cai matando no gênio de ‘Tio Vânia’. Pergunta – quem precisa de Chekhov no mundo atual? Se ele não fosse ‘clássico’, quem perderia tempo para lê-lo? O choque em ‘Les Clairières’ é entre o mundo prático, real, e o sonhado, da arte. Não é para todos os gostos. Sem entrar em detalhes, e mesmo com o risco de parecer preconceituoso, me parece um cinema um tanto direcionado (para plateias de gays?).

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