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Cultura » Longa vida ao prêmio!

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Luiz Carlos Merten

30 Abril 2009 | 14h04

Já contei para vocês de minha tristeza por não ter ido ao Recife, para o Cine PE, festival que amo e este ano ainda homenageou Costa-Gavras. Imagino o que tenha sido o clima no Cine-Teatro Guararapes, com aquela plateia calorosa (e ruidosa). Mas foi por uma boa causa, ou melhor, por várias boas causas. Fiquei em São Paulo porque queria entrevistar Carlos Sorín, o diretor argentino de ‘A Janela’ e o texto está na capa de hoje do ‘Caderno 2’. Espero que vocês o tenham lido (ou leiam), como espero que vejam o filme, que me produziu uma epifania. Na terça, tinha a festa da APCA e ontem à noite o evento no Sesc. Amanhã à tarde, sigo para Roma, para a junket de ‘Anjos e Demônios’ e já fico na Europa para a abertura do Festival de Cannes, em 13 de maio. Minha vida está sendo uma correria esta semana. Quero falar sobre a APCA. A entidade existe desde os anos 50, embora só no começo dos 70 tenha adquirido o formato atual, entregando os prêmios aos melhores de várias caqtegorias artísticas (cinema, teatro, teatro infantil, televisão, literatura, visuais, música etc). A APCA atravessou os anos da ditadura como marco de resistência cultural e resiste, tanto tempo depois. Muitos associados reclamam, porque ela não é mais atuante, não promove debates etc. A reclamação pode ser legítima, mas a maioria não quer esse tipo de participação. O prêmio, de qualquer maneira, é o cartão de visitas da APCA. E é muito considerado. Emocionei-me quando Carlos Reichenbach, premiado pelo roteiro de ‘Falsa Loira’, disse no palco que é o prêmio menos ‘careta’ do cinema brasileiro. É um prêmio que os artistas têm orgulho de colocar no currículo (e não só os de cinema). O próprio troféu, uma peça de Brennand, é mais bonito do que o Oscar (muito mais). Gustavo Machado foi melhor ator, por ‘Olho de Boi’, Djin Sganzerla, a melhor atriz, por ‘Meu Nome É Dindi’. Ela estava resplandescente, ele chegou atrasado, pois estava com a peça ‘Navalha na Carne’, de Plínio Marcos, no Teatro Fábrica. Ambos jovens e os dois eufóricos com o reconhecimento. E não apenas eles – Andrea Tonacci, melhor filme, por ‘Serras da Desordem’, e Daniela Thomas, co-diretora, com Walter Salles, do ouytro melhor filme, ‘Linha de Passe’. Waltinho não pode vir, pois estava na Europa. Mandou um texto lindo, que Daniela leu, falando dos dois premiados (Tonacci e Daniela e ele) e a própria Daniela, num arroubo materno, dedicou o prêmio a seu filho, que estava na plateia. O garoto a vira perder, uma a uma, as sete categorias para que ‘Linha de Passe’ fora indicado na premiação da Academia Brasileira de Cinema. O reconhecimento pela associação lavou a alma da mãe (e diretora). Vou fazer uma pequena confissão de pai coruja. Na hora de subir ao palco para entregar os prêmios, descobri que estava sonho. Neuza Barbosa, que tem sido minha parceira, está no Recife. Existe ali um problema, digamos, técnico. É preciso pegar o diplom,a, a estatueta e o microfone para entregar ao(s) vencedor(es), Falta-me mão para tudo isso. Numa inspiração de momento, pedi a minha filha, que estava na plateia, que me ajudasse. Espero que nernhum colerga se sinta ofendido nem me acuse de nepotismo por isso. Não foi planejado. Lúcia estava linda, No final, Marco Nanini, que acaba de filmar ‘O Bem-Amado’ com Guel Arraes, me abraçou e disse que achou bonito o paizão chamando a filha. Foi, não sei se posso definir assim, uma licença poética. Espero que ninguém tenha se ofendido. Mas eu fiquei feliz. Como pai, como integrante – e ex-presidente; o atual é Marcos Bragato – da Associação Paulista dos Críticos de Arte. O prêmio é sempre uma guerrilha. A entidade é pobre, não consegue patrocínio. Nem um coquetelzinho, uma taça de champanhe para comemorar. De garganta seca, os premiados comemoram ébrios de felicidade. Longa vida à APCA!