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Luiz Carlos Merten

30 Abril 2010 | 15h50

RECIFE – Vi ontem pela quarta vez ‘As Melhores Coisas do Mundo’ e cada vez me encanta mais o filme de Laís Bodanzky, com sua história de amor entre dois irmãos e de como um deles salva o outro. Na coletiva, fiz algumas perguntas e, ressaltando a importância da relação entre Mano e Pedro, cheguei a dizer, meio no impulso, que o filme,  pegando carona em meu amado ‘Rocco’, poderia se chamar ‘Mano e Seu Irmão’. Depois, conversando com Orlando Margarido, aceitei a observação dele de que o título ‘As Melhores Coisas’ é um tanto problemático, porque não diz muita coisa, ou melhor, diz tantas que não significa nada. Mas o filme é lindo e, mesmo considerando o personagem, de Fiuk, Pedro, a alma torturada de ‘As Melhores Coisas’ – a retomada do Neto de ‘Bicho de Sete Cabeças’ , como já escrevi -, rendi-me ao Francisco Miguez, que faz Mano, e é bom demais. A sessão de ontem, com o Cine-Teatro Guararapes lotado de jovens (principalmente), foi uma experiência e tanto. A cena em que Mano pede à prostituta para ficar no quarto, porque não quer abrir para os colegas que não fez sexo com ela, prossegue com a mulher fingindo um orgasmo e o público riu bastante. Na cena em que ele, finalmente, perde a virgindade com a colega de escola e sai, eufórico, de bicicleta, a emoção da plateia era uma coisa tão intensa que eu viajei no tempo e me projetei nos meus verdes anos. As meninas urravam quando Fiuk, ancorado no sucesso de ‘Malhação’, apareceu pela primeira vez na tela. No final, Mano, o garoto da virada, o que salva o irmão e a família, virou objeto de desejo e as menininhas todas corriam para Francisco Miguez, querendo  tirar fotos. É seu primeiro filme e, em duas horas – menos, até – ele conquistou a plateia mais entuisiasmada do Brasil. Honestamente, cá comigo tenho pena de quem acha que tem de ser racional o tempo todo e não consegue viajar na emoção, pura e simples, de um filme como este. Meu amigo Rodrigo Fonseca contesta a falta de humor de ‘As Melhores Coisas’. Como Laís, eu acho que o filme tem humor, mas não acho que os personagens – e os espectadores – têm de ser idiotas, rindo o tempo todo, como se jovem fosse algum débil mental. O grande momento de humor, ontem, foi involuntário. Numa cena decisiva, uma das mais dramáticas do filme, a do suicídio, um gato saltou da plateia e atravessou o palco. A sala – imensa – veio abaixo. Temi que aquilo fizesse desandar o clima. A garotada riu e voltou à intensidade do drama. Estou em lua de mel com ‘As Melhores Coisas’. O filme estreou com quase 60 mil espectadores, abaixo do ideal, que seria chegar a uns 100 mil. Mas Laís e seu marido roteirista Luiz Bolognesi estão otimistas. O cinema deles é autortal, feito de sutilezas. Busca uma vida que ultrapasse a ditadura do primeiro final de semana, quando um filme tem de dizer, rapidamente, a que veio no mercado. A própria Warner, que distribui ‘As Melhores Coisas’ apresentou à dupla criadora um estudo mostrando que os filmes deles não estouram de cara, mas costumam ter longa vida no mercado. Longa vida a ‘As Melhores Coisas’. Não é só um filme sobre (e para) jovens. É sobre (e para) pais, também. E, agora, me deem licença. Nem só de cinema brasileiro se vive (ou eu vivo). Vou correr a um shopping para ver se vejo ‘O Homem de Ferro 2’, antes do novo Jorge Durán, que encerra a mostra competitiva do Cine PE, hoje à noite. E lá vou eu…