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Cultura » Longa Viagem 2, o retorno a Ford

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Luiz Carlos Merten

09 Dezembro 2007 | 12h24

Sabia que ‘A Longa Viagem de Volta’ tinha roteiro de Dudley Nichols, que escreveu os filmes famosos de John Ford nos anos 30 (‘O Delator’, adaptado de Liam O’Flaherty; ‘Mary Stuart’, adaptado da peça de Schiller; ‘No Tempo das Diligências’, adaptado de ‘Stage to Lordsburg’, de Ernest Haycock, e, mais remotamente, de ‘Bola de Seda’, de Guy de Maupassant). Achava que a fotografia, cujo expressionismo André Garoli admite que o influenciou, fosse de Bert Glennon, Arthur Miller (homônimo do dramaturgo) ou Joseph August, que eram os fotógrafos com quem Ford costumava trabalhar na época, mas não – é de Greg Tolland, um ano antes de ‘Cidadão Kane’ (e já exercitando as inovações historicamente atribuídas a Orson Welles e que ele, na verdade, absorveu e sistematizou de experiências anteriores). O próprio Welles dizia que aprendeu tudo – sobre técnica, inclusive – com o diretor de ‘Stagecoach’. Grande Ford. O curioso é que o Homero das pradarias, o mestre dos westerns, era atraído pelo mar. Embora menos numerosos do que os bangue-bagues, seus filmes sobre o mar somam ‘Seas Beneath’, ‘Submarine Patrol’ e ‘A Longa Viagem de Volta’, mas o que deveria ter sido a obra-prima marítima de Ford, ‘Mister Roberts’, virou um problema, porque ele se desentendeu com Henry Fonda, que havia feito a peça e não concordava com as mudanças que o diretor queria fazer nela. Os dois romperam, embora Ford tivesse dirigido o pai de Jane Fonda em muitos filmes, incluindo ‘Young Mister Lincoln’/A Mocidade de Lincoln, também de 1940. O mestre foi afastado da produção e o filme foi concluído (e assinado) por Mervyn LeRoy, que liberou Henry Fonda para fazer o personagem do jeito que quisesse (e ele está muito bem, é preciso admitir). Por suas odisséias de grupos, Ford é chamado de Homero do cinema norte-americano e essa é uma grande diferença em relação a seus filmes sobre o mar. Em ‘Patrulha Submarina’/Submarine Patrol, de 1938, com Richard Greene, há uma comunidade marítima, mas em geral marinheiros são seres errantes por excelência, e solitários. Talvez seja por isso que os filmes marítimos permaneçam como exceções na obra fordiana. Ao mesmo tempo que narram odisséias, não oferecem a contrapartida do estudo de comunidades que se constitui na essência, não só dos westerns, mas do cinema de John Ford. Ele fillmava, e fez grandes filmes, para mostrar como se constrói uma civilização. Até por ser um pouco marginal ao conjunto da obra, fiquei louco para ver ‘A Longa Viagem de Volta’. Espero que André Garoli não se esqueça de mim. Só como curiosidade, o filme de 1940 é interpretado por Thomas Mitchell, John Wayne, Ward Bond, Barry Fitzgerald, Mildred Natwick, John Qualen – ou seja, por todos os atores que o diretor amava e com quem trabalhou tantas vezes, a ponto de eles constituírem aquilo que os críticos chamam de ‘Ford’s stock company’.

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