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Luiz Carlos Merten

18 Maio 2008 | 13h59

CANNES – Se tivesse ao meu lado amigos e outras pessoas queridas, poderia dizer que vivi ontem à noite (sábado) um daqueles momentos perfeitos na vida de um homem. Fui ver ‘Lola Montès’ na seção Cannes Classics, e enquanto esperava o filme li o texto explicativo da restauração, o que inclui a descrição de todas as mutilações que esta obra-prima sofreu. Nada mais distante do artifício assumido de Max Ophuls do que o realismo nostálgico de Luchino Visconti, mas confesso que pensei muito em ‘O Leopardo’. A propósito, foi meu segundo pensamento viscontiano ontem, aqui em Cannes, porque não dá para não pensar em meu querido ‘Rocco’ a propósito do belíssimo ‘Linha de Passe’, de Walter Salles e Daniela Thomas. No folder distribuído à imprensa, Marcel Ophuls, o filho de Max, lembra a decepção de seu pai, quando o filme foi massacrado na estréia, em 1955. Não sei que crítico tentou defender o filme sob a alegação de que era uma obra de vanguarda, que o público não estava entendendo, mas Max Ophuls ficou mais decepcionado ainda, como disse ao filho. Ele não havia tentado fazer um filme de vanguarda. Havia feito o filme comercial cobrado pelos produtores e se sentia arrasado com a rejeição do público. Mas houve – houveram? -, desde o primeiro momento, os amorosos de ‘Lola Montès’, a maravilhosa Martine Carol. Truffaut, que foi o primeiro celebrante do culto ao filme, puxou o coro – ‘Se for preciso polemizar, polemizaremos. Se for preciso combater, combateremos.’ Ah, o amor pelo cinema. Lembrei-me também de ‘Moulin Rouge’, de Baz Luhrmann. Chovia torrencialmente quando saí da sala. Com os acessos ao palais interditados, fui me afastando cada vez mais do ponto aonde queria ir para ver outro filme. Molhado feito um pinto na chuva, entrei num restaurante simpático, próximo ao hotel em que estou. Comi um ótimo dourado, tomei uma taça de excelente vinho francês e, para completar, comi minha sobremesa favorita quando estou aqui em Cannes – fraises nature (os melhores morangos do mundo). Fiz tudo isso sozinho. Alguns coleguinhas foram ver a sessão de gala de ‘Linha de Passe’, outros foram… Não sei. Foi um daqueles dias em que me senti privilegiado. A vida me tirou algumas coisas, mas me me deu muitas em troca, e o que foi perdido não vale a pena – e às vezes não merece – ser chorado. É o contrário da frase que Jim Broadbent diz ao velho Indiana Jones de ‘O Reino do Crâneo de Cristal’. Quando Harrison Ford olha para a foto de Sean Connery e diz que os últimos anos foram duros para ele, Broadbent – o animador do cabaré de ‘Moulin Rouge’ – diz exatamente o contrátrio do que acabei de afirmar. ‘Já estamos naquela fase em que a vida não nos dá mais nada e só tira.’ O próprio ‘Crâneo de Cristal’ é a negação disso. O grande tesouro humano é o conhecimento. É viver cada fase com a plenitude que ela pode proporcionar. Estou levinho da vida.