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Luiz Carlos Merten

23 Março 2011 | 11h35

Estava indo para a cabine de ‘Feliz Que Minha Mãe Esteja Viva’ na Reserva Cultural quando um chamado de meu editor, Ubiratan Brasil, me fez retornar o carro. Morreu Elizabeth Taylor. Liz Taylor! Cheguei na redação e tinha de gravar para a rádio Eldorado, para o portal do ‘Estadão’. A|gora, sim, estou conseguindo postar. Não sei nem por onde começar. Pelo princípio, é melhor. Liz Taylor podia ser hoje uma velhinha excêntrica, dedicada a uma obra filantrópica (pesquisas sobre a aids). No seu tempo, nos anos 1950 e 60, foi, senão a maior das estrelas de Hollywood, a última superstar. Algo se passou em Hollywood quando Liz, que não queria fazer ‘Cleópatra’, cobrou um salário inimaginável no cinemão, por volta de 1960.  US$ 1 milhão – que a Fox nem discutiu. Bancou na hora. O star system sofreu um abalo, as relações dos astros e estrelas com os estúdios iam mudar. E tudo isso foi obra de um capricho de Taylor.  Até os anos 1970, seu conturbado casamento com Richard Burton era o assunto preferido da mídia de celebridades, que Liz não inventou, mas certamente incrementou. O romance ‘proibido’ dos dois durante a filmagem de ‘Cleópatra’ foi o maior ti-ti-ti. Fotógrafos, os terríveis paparazzi, seguiam o casal noite e dia, em busca de um flagrante exclusivo do que como começou como uma história de adultério. Justamente, o adultério. Liz já havia ‘roubado’ o marido (Eddie Fisher) da amiga Debbie Reynolds, quando ficou viúva do produtor Mike Todd, mas o casamento não durou porque logo veio a rodagem de ‘Cleópatra’, ela caiu de amores por ‘Dick’ Burton, ressalto o Dick porque parece que o ator galês era bem dotado, ou sabia usar seu instrumento e Taylor proclamou, repetidas vezes, que sua vida sexual começara com ele (e isso depois de ‘n’ casamentos). Burton bebia além da conta. Com ela, ela descobriu a poesia, fez teatro, tornou-se cachaceira. Casaram-se duas vezes. Não conseguiam viver juntos nem separados. Foram o que Angelina Jolie e Brad Pitt, o casal Brangelina, representa hoje. Essa imagem de celebridade é muito forte, mas o que me interessa é Liz, a atriz. Ela fez grandes filmes de George Stevens, ‘Um Lugar ao Sol’ e ‘Assim Caminha a Humanidade’; Richard Brooks, ‘Gata em Teto de Zinco Quente’, adaptado de Tennessee Williams; Joseph L. Mankiewicz, ‘De Repente, no Último Verão’, também adaptado de Tennessee Williams; ‘Cerimônia Secreta’, de Joseph Losey. Liz amava os diamantes, os excessos, mas Losey, vítima do macarthismo, defendia o casal porque dizia que, a despeito da exterioridade mundana, a Liz de Dick era uma leoa na defesa do direito à diferença. Montgomery Clift, um gay notório, a amava. Rock Hudson foi seu amigo e ela compreendia o dilaceramento do astro, também gay, que tinha de manter a imagem de machão. Quando ele assumiu que estava com aids, e saiu do arjmário, Liz lhe deu todo apoio (e iniciou sua luta por pesquisa e, mais do que isso, contra a discriminação). Ela ainda teve outra terceira grande amizade, e com um cara também ambivalente, Michael Jackson. Vi-a apenas uma vez, em Cannes, acho que em 1992 ou 93. Depois que engordou para fazer Martha em ‘Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?”, e ganhou o segundo Oscar,  Liz perdeu a forma. Havia sido, talvez, a mulher mais bela do mundo. Nunca mais recuperou a silhueta, mas conservou os belíssimos olhos cor de violeta. Confesso que fiquei mergulhado naqueles olhos. Liz lançava em Cannes o baile da Amfar, projeto que hoje é levado por Sharon Stone e faz parte do calendário do festival, tão certo quanto a Palma de Ouro. Liz Taylor! Vi-a menina em ‘A Mocidade É Assim’, de Clarence Brown, ligada àquele cavalo; sua cena de beijo com Monty Clift, a sucessão de closes em ‘Um Lugar ao Sol’, faz parte do meu imaginário fílmico, como a lingerie de Maggie, a gata, lutando para devolver o tesão àquele marido, Paul Newman. E o maiô branco, transparente, na praia dos meninos de ‘De Repente, no Úlytimo Verão’? E a entrada triunfal de Cleópatra em Roma? E a história doi ratos, o que se afoga no leite e o outro que se debate tanto que pela manhã consegue se sentar no alto de uma montanha de manteiga em ‘Cerimônia Secreta’? As imagensa se sucedem como num filme que vou montando. Liz foi precedida, na morte, por todos os grandes diretores com quem trabalhou. Ela morre aos 79 anos, a mesma idade de Annie Girardot. Foi uma sobrevivente. Havia driblado tantas vezes a morte que parecia que não ia morrer nunca. Graças à magia do cinema, permanecerá sempre viva, e bela, em filmes que fazem parte da história. Da minha, com certeza.