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Luiz Carlos Merten

17 Junho 2008 | 10h35

Sou bem mandado. Acho que foi o Felipe que me cobrou alguma coisa sobre ‘Lírios d’Água’, que estreou já há algumas semanas – umas duas, acho – e sobre o qual nada escrevi. Quem fez a crítica no Caderno 2 foi o Zanin, meu colega Luiz Zanin Oricchio, e imagino que não tenha gostado muito, porque a cotação do filme, no Guia do Estado, é regular. Lá fui eu ao Belas Artes. O filme usa o ambiente do nado sincronizado para falar da descoberta da sexualidade por parte de três meninas. Parece, e são – fisicamente, pelo menos – bem diferentes. Uma, gordinha e desajeitada; outra, a capitã da equipe de nado, sexy e desinibida; e a terceira tão franzina que nem parece da mesma faixa etária. É o olhar desta última que conduz a narrativa e a grande descoberta do espectador é que são idênticas nas suas inseguranças. O filme dura hora e meia. Confesso que passei maus momentos no cinema. Deixem-me explicar. ‘Lírios d’Água’ é um daqueles filmes que criam um clima de estranhamento para o espectador, sempre à espera de algo vá ocorrer, porque as meninas são perfeitas para exemplificar a afirmação de que de perto ninguém é normal. Tem até uma frase sobre isso. A garota bela diz que que quer pedir uma coisa, que talvez não seja muito normal, e a franzina retruca com alguma coisa do tipo – ‘E quem liga para a normalidade?’ Pelo clima, esperava que algo fosse ocorrer. Não ocorre nada. É ao mesmo tempo a fascinação e o limite de ‘Lírios d’Água’. Toda a trama gira em torno da questão do sexo. A garota descolada é considerada p… pelas colegas, mas é virgem. A gordinha vai perder a virgindade primeiro, e com o bonitão da escola. Mas ele não beija, e o beijo é o sonho da menina. O que ocorre na tal cena que deveria ser do beijo – não vou contar, não se assustem – é muito desagradável. Saí incomodado, e se alguém acha que o filme seria bom por isso, ou que esta é a função do cinema, quero dizer que discordo. A experiência cinematográfica é muito mais complexa, e tanto faz se eu vou ter uma catarse ou não. O importante é que o filme me enriqueça, enquanto experiência emocional ou intelectual. Não foi o caso. A diretora Céline Sciamma pode ser talentosa, mas me deprimiu profundamente. Saí do cinema meio desarvorado. Terminei entrando em outro filme. Há tempos queria (re)ver ‘Como Festejei o Fim do Mundo’. Foi ontem. No próximo post.