Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Linha de Passe

Cultura

Luiz Carlos Merten

17 Maio 2008 | 07h49

CANNES – Espero não me arrepender dessas análises apressadas que a gente é obrigado a fazer num festival de cinema, especialmente num tão grande como Cannes, onde a cada hora seria poóssível escolher uns dez filmes diferentes para assistir. Já falei aqui contra a mundanidade e frivolidade que Woody Allen me passa em ‘Vicky Chrstine Barcelona’, mas achei interessante o que li numa vista d’olhos da edição de hoje de ‘The Hollywood Reporter’. A propósito, Woody está na cidade e participa daqui a pouco da entrevista de seu filme, com Penelope Cruz e Rebecca Hall. Scarlett Johanssen e Javier Bardem não vieram. O que Woody disse a HR foi o seguinte (vou transcrever) – “Algumas pessoas me dizem que que seu favorito é ‘Bananas’ ou ‘Interiores’ ou ‘Annie Hall’. É muito pessoal e foi por isso que, há muitos anos, parei de ler as críticas. Existem muitas opiniões disparatadas, todas válidas e corretas, mas você não pode dar conta de todas. Senão você enlouquece e ainda tem a contrapartida de não aprender nada.” Isso remete àquilo que vivo dizendo. O filme é do diretor enquanto ele o faz. Depois do lançamento, ele pertence a nós, o público, que vamos reinventar o filme dele (e nos reinventar) de acordo com nossa sensibilidade e inteligência, com aquilo que a gente coloca ou retira do filme que ele fez para construir um filme ideal na nossa cabeça. Digo isso porque vi agora de manhã o novo filme de Walter Salles e Daniela Thomas. Gostei muito de ‘Linha de Passe’. Em todas as suas manifestações e entrevistas, Waltinho têm dito que este é um filme muito simples e pequeno, mas eu não achei uma coisa nem outra. Acho que há uma representação muito forte do País em ‘Linha de Passe’. De novo, como em ‘Central do Brasil’, o pai está ausente e esta família disfuncional – a mãe e seus quatro filhos, mais o quinto que ela está para partir -, enfrenta o desafio permanente de buscar um caminho. Um busca no futebol, outro na religião evangélica, o terceiro é um motoboy que, lá pelas tantas, flerta com a a criminalidade e o menbor de todos, que não desiste de buscatr o pai, motorista de ôniobus (e, por isso, ele seqüestra um ônibus e sai pela cidade de São Paulo, que é a sexta grande personagem de ‘Linha de Passe’). Na coletiva, Walter falou que o cinema brasileiro recente fez uma opção pela fatia pobre que fez uma opção pela violência, mas quie na periferia existe,m muito mais jovens que buscam se reinventar, para não ceder à violência do tráfico, muitos trabalhadores. São esses que ele elegeu filmar, e é uma escolha legítima. Achei o filme emocionante – uma jornalista italiana disse que viu ‘Rocco e Seus Irmãos’ ali dentro e eu assino embaixo – e essa empatia que ele me provocou passa, com certeza, pelos atores. Vinicius de Oliveira, de ‘Central’, como o que sonha ser craque, João Baldassari (o motoboy), José Geraldo Rodrigues (o crente em dúvida sobre sua vocação, mas não sobre a sua vontade de ser correto) e Kaíque de Jesus Santos (o caçula, que rouba o ônibus) são geniais. Compreendo perfeitamente às críticas que o pessoasl de teatro faz a Fátima Toledo como preparadora de elenco. Ela não forma atores, mas prepara não profissionais para ‘viverem’ a cena. Depois, muitos deles têm virado atores, sim. Mas a unidade das interpretações de ‘Linha de Passe’ conta um ponto para Fátima e a apropriação que o elenco fez dos personagens é parte da grandeza do filme. Walter contou cenas que estão na tela e foram inventadas pelos atores. Kaíque disse a José Geraldo que agisse de um jeito e a cena ficou tão boa que Walter e Daniela Thomas a incorporaram ao filme. Há uma urgência em ‘Linha de Passe’, há uma base documentária muito forte. E ah, sim, a Fiel pode ir preparando seu coração, porque as cenas do Timão aceleram o coração.

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Encontrou algum erro? Entre em contato