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Luiz Carlos Merten

24 Maio 2007 | 13h26

CANNES – Continuo no céu (I’m still in heaven), mas para não parecer cabotino vou começar pelo Scorsese. A lição de cinema foi muito legal. Scorsese mostrou cenas de seis filmes – Caminhos Perigosos, Touro Indomável, Depois de Horas, A Idade da Inocência, Cassino e Kundun. Lembro quando disse aqui que não gostava da trilogia do Scorsese com Leonardo DiCaprio e elogiei Kundun que alguém, não me lembro quem, me chamou disso e daquilo. O próprio Scorsese escolheu a mais bela cena de Kundun, aquela em que o menino é acordado no meio da noite e solicitado a escolher, entre um certo número de objetos, aqueles que vão definir se ele será mesmo o futuro dalai-lama. A cena é maravilhosa. A música de Philip Glass é maravilhosa. Scorsese falou da intensa experiência espiritual deste filme e como foi usar atores não profissionais para contar a história. Detalhou o uso da música. Muito interessante. Usando cenas de Kundun e de Cassino – Sharon Stone arrebentando a banca -, ele disse que seu método tem um fundo de documentário. Ele precisa documentar para si mesmo e para o público o mundo de seus personagens. E eu amo Depois de Horas! A cena escolhida – Griffin Dunne sacolejando no táxi, conduzido a toda velocidade por um motorista mais louco que Robert De Niro – é genial. Não admira que Scorsese tenha ganhado o prêmio de direção (mise-en-scène) aqui em Cannes. Ele foi aplaudido de pé. Tarantino foi assistir à sua aula. Imagino que deva ser difícil para um sujeito manter a cabeça fria ao ser adorado quase como Deus. Não gosto dos filmes com DiCaprio, mas os anteriores… E o trabalho de Scorsese na salvaguarda de filmes negligenciados… Quem é cinéfilo tem uma dívida com ele.