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Luiz Carlos Merten

26 Fevereiro 2010 | 08h52

PARIS – Ontem era o dia certo do aniversário de Elaine Guerini e fomos comemorar jantando no restaurante de Gerard Depardieu, o Fontaine Gaillon, na place Gaillon, perto da Opéra. É caro, mas é maravilhoso e Depardieu ainda se dá ao luxo de ornamentar as paredes de seu restaurante com um Picasso autêntico, é mole? Não nos atrevemos a tomar os vinhos que ele produz, porque são muito caros. Mas não resisto a postar aqui o que disse o ator em Berlim. Cada vez mais, o cinema que lhe interessa é o ‘outro’, de outras culturas, outros autores. Depardieu gostaria de filmar no Brasil, com Ruy Guerra e Cacá Diegues, que bem poderiam procurar um material para ele. Fui ver ontem à tarde ‘Liberté’, de Tony Gatlif. Havia enviado para o ‘Caderno 2’ as entrevistas que vocês podem ler hoje, com Juan José Campanella e Karim Dridi, feitas no Festival do Rio do ano passado. Estreia nesta sexta-feira aí em São Paulo o ‘Khamsa’, de Dridi, que o próprio diretor define como o seu ‘Pixote’, acrescentando que o clássico de Babenco foi o filme que lhe deu vontade de virar cineasta. ‘Khamsa’ é sobre esse garoto cigano da periferia de Marselha, que ingressa numa vida no crime. Dridi me contou que, de cara, mostrou seu filme para Tony Gatlif, cineasta francês de origem cigana, em busca de aprovação. Nem sempre gosto dos filmes de Gatlif, mas gosto de vê-los, porque é raro esse olhar marginal, ‘cigano’, sobre o cinema (e, além do mais, as trilhas de Gatlif, como as de Emir Kusturica, são maravilhosas). Gatlif aprovou ‘Khamsa’ e Karim Dridi admitiu, para mim, que havia sido um alívio. Pois bem, à tarde, ontem, fui ver o novo Gatlif, recém estreado, ‘Liberté’. Uma história real sobre o holocausto dos ciganos pelos nazistas, durante a 2ª Guerra. Justamente por serem nômades, não existiam registros confiáveis sobre o número de ciganos mortos em campos de concentração. Hávia 2 milhões deles na Europa, calcula-se que até um quarto, 500 mil, morreram nas mãsos dos nazistas. O filme reconstitui essa história ‘esquecida’. Com os ciganos, vem também a história dos resistentes. Confesso que me emocionei e ainda saí do cinema, o Saint André des Arts, e ainda passeeei naquelas ruas em que ainda existem as placas sobre integrantes da resistências que morreram aqui, ali, defendendo a França, e Paris. Tantos jovens, vidas roubadas. O cinema, Gatlif, dá seu testemunho sobre essa barbárie. Gostaria que, de repente, Jean Thomas Bernardini, da Imovision, levasse ‘Liberté’ para o Brasil. Independentemente de vocês gostarem ou não, seria importante que vissem o filme.