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Liberdade é uma calça azul e desbotada

Luiz Carlos Merten

23 Dezembro 2006 | 09h58

Vi ontem Sunchine, do István Szabó, na TV paga. Liguei, estava passando, eu me disse que ia ver só um pouquinho, mas fui ficando, ficando e vi até o fim. Isso me ocorre com freqüência. Tem filmes que já devo ter visto uma centena de vezes. Vejo um pouquinho, um poucão, vejo inteiro e vejo na próxima vez, também. Szabó virou uma unanimidade em todo o mundo com Mephisto, filme do qual era difícil não gostar, no começo dos anos 80. Houve, antes dele, uma geração que fez história no cinema húngaro – Miklos Janczo, com seus filmes narrados em planos-seqüências, visualmente lindos, mas quase sempre chatos. Mephisto ganhou o Oscar e teve numerosos filhotes, incluindo, aqui no Brasil, o Filme-Demência, do Carlão Reichenbach. Foi seguido, na filmografia do autor, por vários trabalhos que também discutiam o poder, mas acho que o melhor deles era o que menos parecia ter a ver com o assunto. Desafio de Vênus trata da relação de um maestro com uma cantora lírica. A exemplo de Wajda em O Maestro, Szabó transformou a música em metáfora da política e acho que ainda deu a Glenn Close o melhor papel da carreira dela -¬ mas claro, quem sou eu?, as pessoas preferem a pérfida Merteuil de Ligações Perigosas. Szabó foi perdendo prestígio, com o deslocamento do eixo do cinema de autor para outras paragens. Os orientais (chineses e coreanos) substituíram os europeus. By-bye István Szabó. E aí ele fez Sunchine, contando décadas da história de uma família judia sob o comunismo, na Hungria. O filme é tradicional, acadêmico, como se Szabó ficasse um tanto paralisado pela consciência de estar falando sobre um tema importante. O judeu que sobrevive ao nazismo para descobrir um horror maior no comunismo – um fascismo de vermelho – é uma coisa impressionante. O interrogatório de William Hurt pelo Ralph Fiennes diz muito sobre o problema da consciência, sobre a necessidade de não transigir. E essas coisas ocorreram, estão documentadas, não são fantasias de roteiristas. O mundo mudou. O comunismo era um horror para quem vivia sob ele, mas pelo menos colocava um entrave ao poderio americano. O comunismo acabou na Rússia, mas não trouxe democracia, como a deposição de Saddam Hussein não está nem de longe acenando com democracia para os iraquianos. Não sou eu que digo ¬- são os iraquianos que têm saudades do país em que viviam antes. Leiam o que dizem as agências. Hoje, temos uma coisa só no mundo, a economia de mercado que, de livre, não tem nada. O maior sábio que conheço, mas não sei quem foi, foi o publicitário que, há 40 anos, previu o que ia ocorrer, criando aquele slogan – liberdade é uma calça azul e desbotada, que a gente compra no shopping e pode agora dar de presente (mas, se for de grife, acrescento eu, vai pagar mais caro). Não acredito que alguém decente venha me dizer que esse mundo globalizado é o de seus sonhos. Ditadura de mercado, exclusão social. Há um neo-neocolonialismo na África, por exemplo, que está sendo pilhada e ninguém liga, exceto quando vê o filme do Fernando Meirelles, o Jardineiro Fiel. Neste quadro, o humanismo à moda antiga de Szabó me toca. Ele resistiu ao nazismo e ao comunismo como resiste hoje às novas estruturas de poder no mundo. Seu cinema não tem mais o mesmo brilho, mas ainda se pode prestar atenção ao que este ‘velho’ tem a nos dizer.