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Luiz Carlos Merten

01 Março 2011 | 14h04

Não, não é a comédia clássica de Howard Hawks, com Katharine Hepburn e Cary Grant. Vamos agora à Surfistinha. Dona Bruna não é mole. Só que antes de Deborah Secco, vou começar por Fabiula Nascimento, que faz a p… barraqueira no bordel de dona Drica (Moraes). Há tempos que penso numa coisa. Como não sigo novelas – nem a atual, de Gilberto Braga –, não sei se esse encontro já houve, mas tenho comigo que Fabiula e Gloria Peres nasceram uma para a outra e que, se ainda não se cruzaram, o dia em que isso ocorrer e Gloria escrever para Fabiula ela vai virar a estrela que merece ser. Fabiula é tão boa que, por momentos, ‘quase’ nos faz esquecer que o filme é de Deborah, aliás, Bruna, aliás, Raquel. Vamos por partes. Achei ‘Bruna Surfistinha’ bem interessante, bem mais do que imaginava. Não sei quem é o diretor Marcus Baldini. Ouvi dizer, e a informação carregava o preconceito de quem a forneceu, que é publicitário. Processei (a informação) e ela me forneceu a chave para a compreensão da estrutura do filme. Em primeiro lugar, tenho de confessar que sabia vagamente da existência de Bruna Surfistinha. Se dependesse do blog para conhecê-la… Sorry, mas não entro em blogs dos outros, só no meu. Era mais fácil conhecê-la do puteiro, mas também não é o caso. Justamente o fato de não conhecê-la me permitiu olhá-la somente como a uma personagem de ficção, e aí o filme é bem bom. A Bruna do filme, não sei se necessariamente a da realidade, é uma Gata Borralheira que se recusa a ser Cinderela. Assim como foge do príncipe encantado – até pela compreensão de que a maioria dos homens com quem vai para a cama é de sapos –, recusando-se a ser teúda e manteúda, Bruna parece uma personagem de Rainer Werner Fassbinder, ou o próprio Fassbinder, no sentido de que dificulta ao máximo a tarefa de quem quer gostar dela. O filme é muito mais uma narrativa de rupturas do que de encontros. Até o último, do salvador que a resgata daquele corredor sórdido em que os homens fazem filma para devorá-la por 20 ‘real’, a Bruna da ficção não cede. Mas Baldini, como foi observado, é publicitário. Ele tem um produto nas mãos, e é a Bruna do blog, não por acaso, uma obra de ficção de Raquel. A Bruna real não existe, é um objeto de desejo. O filme termina quando ela volta a se prostituir e abre a porta para nós, o público, presumíveis clientes. A ‘redenção’ fica fora do filme e é um letreiro que nos informa o que houve com Bruna, que ela parou com a prostituição, achou seu príncipe, casou-se, leva uma vida, digamos ‘normal’. Não é o que interessa a Baldini. Achei muito curiosa essa forma de resolver, pós-dramaturgicamente, o conflito básico da personagem. Fiquei pensando (mais ainda). A puta, perdão, a prostituta, é uma personagem frequente do cinema, mas em geral é a p… de bom coração. Lembram-se de Melina Mercouri em ‘Nunca aos Domingos’, de Jules Dassin? De Claudia Cardinale em ‘Era Uma Vez no Oeste’, de Sergio Leone? De incontáveis putas que rodaram a bolsinha na tela enquanto filhas e filhos recebiam boa educação, paga com… O suor do rosto? Não, o buraco, convenhamos, é mais embaixo. Poucos são os diretores que tiveram coragem de ir fundo na sordidez da personagem. Sganzerla, no ‘Bandido’, e Janete Jane era a mulher dele, Helena Ignez. Visconti, em ‘Rocco’, mas Nadia lhe interessava como agente destruidor da unidade familiar. Godard, em seu ensaio sobre a prostituição. Mas Godard, de alguma forma, era asséptico. Naná, em ‘Viver a Vida’, é como a galinha da história que é contada, lá pelas tantas (e tinha de ser uma galinha). Ela perde o exterior, o interior, e não sobra nada. Naná, a puta de Godard, interpretada pela mulher dele (na época), Anna Karina, chora assistindo a ‘O Martírio de Joana d’Arc’, de Dreyer, e não tem consciência do próprio martírio. Vira objeto dos homens e é assim que Godard a filma, desconstruindo, por meio da montagem sincopada, as cenas de sexo. Baldini, pelo contrário, leva suas cenas de sexo ao limite do explícito. A iniciação profissional de Bruna é filmada sem frescura – a cara dela, de dor, é esmagada contra a câmera enquanto o cliente se diverte lá atrás (e a voz da protagonista, em off, diz que não vai chorar nem gritar muito menos voltar para casa). Do meu lado, uma garota que assistia ao filme com o namorado (no Marabá) – e eu paguei para ver! –, quase teve um ataque. ‘Que nojo!’, exclamou, quando a protagonista cospe o gozo do cliente em sua boca. Por falar em boca, ainda não sei se ‘Bruna Surfistinha’ estourou a do balão no fim de semana. Mas não senti o moralismo que está sendo atribuído ao filme. O que vi foi a entrega de Deborah Secco ao papel. Garota corajosa (e levada). Vi também Fabiula Nascimento, que, benza Deus, está cada vez melhor. Espero estar contribuindo para que, quem não viu, fique tentado a (com tezão de?) ver ‘Bruna Surfistinha’.

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