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Luiz Carlos Merten

29 Janeiro 2007 | 14h30

Não sei se estou furando o Zanin, meu colega Luiz Zanin Orticchio, e é até possível que o Zana já tenha colocado o post no blog dele no Estado, mas estou olhando a página que sai amanhã no jornal com a avaliação do Festival de Tiradentes, que terminou no sábado, com a premiação de Noel Rosa – O Poeta da Vila, de Ricardo Van Steen. Quero dizer que acho muito bonito o filme do Ricardo e que aprovo a escolha do público de Tiradentes, que, pelo que me contaram, dançou quando Noel Rosa passou na praça. Não li o texto com a avaliação que o Zanin faz do festival, mas estou lendo o título – Entre o popular e o experimental. Aprovo! Vale para a seleção de Tiradentes e para o cinema brasileiro atual. Parece que não existe uma terceira via possível no cinema do País. Os diretores ou reciclam velhas receitas do nacional e do popular na cultura – coisa da esquerda gramsciana dos anos 60 –, devidamente absorvidas pela TV, onde foram parar muitos daqueles intelectuais, ou então manifestam sua ojeriza pelo público fazendo filmes experimentais, só que o tal experimentalismo não é garantia nenhuma de ousadia nem qualidade. O que se vê, na maioria das vezes – já havia dito isso na minha participação nos debates de Tiradentes no ano passado – é um experimentalismo amador e precário, coisa de quem não sabe nem ‘experimentar’. Nos anos 60, tínhamos uma vanguarda forte (Glauber, Glauber e Glauber), mas havia um cinema comercial igualmente forte como opção estética, representado pelo Roberto Farias, cujo Selva Trágica é um dos meus filmes preferidos em toda a história do cinema brasileiro. Hoje em dia, os críticos reclamam que o cinema nacional ‘comercial’ se mediocrizou, não ousa, o escambau, mas a verdade é que muita coisa do tal cinema de autor, o que ‘ousa’, é igualmente, embora de outra forma, medíocre. O mundo não se divide em Deus e o Diabo na Terra do Sol. ‘Ousar’ não é, necessariamente, garantia de qualidade nem garante o acesso ao Olimpo do grande cinema. Ando ficando reacionário. Me lembro do Godard, Jack Palance, como o produtor de O Desprezo, quando ele dizia que puxava do talão de cheques ao ouvir falar em cultura (ou arte). Modesto assalariado que sou, não tenho condições de puxar do talão de chques para ninguém, mas tremo tanto diante do cinema brasileiro de ‘mercado’ como quando dizem que o filme que vou ver é ‘experimental’. Ai, meu Deus! Os crimes que se cometem em nome da ‘ousadia’!