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Luiz Carlos Merten

01 Junho 2007 | 10h28

Ainda não falei nada sobre À Beira do Abismo, a que assisti no ciclo Les Incontournables du Film Noir, em Paris. Só mesmo na França que o cinéfdilo consegue ver, em cópia nova, no cinema, um clássico como o de Howard Hawks e também Sunset Boulevard (Crepúsculo dos Deuses), de Billy Wilder, que integra a mesma programação e depois terá relançamento nas salas. Nunca tinha visto À Beira do Abismo no cinema. Havia visto o filme na TV, e dublado. Foi como ver pela primeira vez. Já virou lugar comum dizer que a trama deste filme é um imbroglio tão grande que nem os autores – Hawks e o escritor Raymond Chandler, muito menos os roteiristas William Faulkner, Jules Furthmann e Leigh Brackett – eram capazes de dizer com certeza quem matou quem, e por que, nos oito crimes que ocorrem durante o relato de menos de duas horas. À Beira do Abismo possui grandes cenas de ação, mas o que me encantou – e fica melhor na versão original – foi o diálogo. É o mais sexy e divertido de toda a história do filme noir. Hawks, grande diretor de comédias – fez a clássica Levada da Breca, com Katharine Hepburn e Cary Grant –, sabe o timing exato e faz com que Humphrey Bogart e Lauren Bacall digam suas falas taco-no-taco. Bogart faz o detetive Philip Marlowe. Na abertura, ele está batendo à porta do Coronel. O detalhe é importante porque Marlowe, como detetive particular, não pertence a ninguém nem a lugar nenhum. Suas investigações fazem dele o eterno outsider. Ele se envolve com as duas filhas do Coronel. No desfecho, diz a Bacall que tenha cuidado com a irmã ninfômona. Diz que ela deve procurar ajuda. E eu, pergunta Bacall? O que há de errado com você, ele retruca? Ela tem a fala final – “Nothing you can’t fix it” (Nada que você não possa resolver). Sem nenhuma referência explícita, muito menos detalhes vulgares, Hawks insinua tudo sobre a relação (e as diferenças) entre homens e mulheres. Saí do cinema chapado. Não queria ver mais nada. Detesto nostalgia (exceto na tela, eventualmente). Essa coisa de que o cinema era melhor, que a geração meia oito era melhor, não cola comigo – mas, gente, depois de ver À Beira do Abismo, só louco para não achar que o cinema americano já foi muito melhor. Basta comparar com os medíocres policiais contemporâneos (Zodíaco, que estréia hoje na cidade, é a exceção). Li, em alguma parte, já faz tempo, que algumas cenas de Bogart e Bacall foram rodadas mais de um ano depois que a produção já estava concluída. Os dois haviam feito antes Uma Aventura na Martinica, com Hawks. Foi o filme que deflagrou o romance. Havia, lá, mais tensão erótica no ar. Em À Beira do Abismo, já estavam juntos e Bacall, mesmo insinuando a tensão (sexual), está muito à vontade representando com o marido. Neste sentido, acho que Uma Aventura na Martinica (To Have and To Have Not) talvez seja ainda mais excitante, mas À Beira do Abismo (The Big Sleep) é o máximo. O filme é de quando? 1946? No fim dos 70, Michael Winner fez um remake horroroso e não era por causa do elenco, pois Robert Mitchum e Sarah Miles conseguem ser muito bons. Não era o caso, mas ali o problema era de direção. Como disse, não queria ver mais nada depois de assistir a À Beira do Abismo, mas ainda fui ver L’Esclave Libre (Band of Angels, lançado no Brasil como Meu Pecado Foi Nascer), de Raoul Walsh, em outro ciclo – Les Incontournables (Os Imperdíveis) du Western – no mesmo cinema, A Filmoteca do Quartier Latin, na Rue Champollion. Tirando o fato de que não se trata de um western, mas de um melodrama de New Orleans – como Nenhuma Mulher Vale Tanto, de Gordon Douglas, com Alan Ladd e Virginia Mayo –, achei maravilhoso. Na entrada, havia um aviso – as cores podem ter esmaecido com o tempo, mas o colorido da saga permanece inalterada. Clark Gable faz o proprietário de terras do Sul dos EUA, ex-mercador de escravos, que se envolve com Yvonne De Carlo. Ela, criada como branca (e rica), é mestiça, filha de escrava e, quando o pai morre, é vendida como escrava, também. Clark Gable a compra. A Escrava Livre (o título francês) é de 1957. Discute sexo e racismo com mais força do que muito filme considerado ‘social’, da época. De novo entrei em crise – e se o cinema fosse melhor, mesmo?