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Luiz Carlos Merten

22 Agosto 2008 | 11h03

Nunca tive tempo de perguntar a Leopoldo Serran porque ele se assinava com N, no final, quando sua pasta, aqui no arquivo do Estado, registra que seu nome de batismo era com M, Serram. Existem hoje roteiristas bastante conhecidos no cinema brasileiro – Paulo Halm, Di Moretti e outros. Leopoldo Serran talvez tenha sido o pioneiro, porque quando ele se iniciou a função não era muito valorizada. Passemos sobre as experiências ‘industriais’ da Atlântida e da Vera Cruz, nos anos 50. Quando Serran assina seu primeiro roteiro – ‘Ganga Zumba’, de Cacá Diegues -, o cinema brasileiro, em pleno Cinema Novo, é autoral e o cinema de autor via de regra era escrito pelo próprio diretor, que também era produtor. A importância da experiência de Leopoldo Serran foi que ele optou por ser roteirista profissional e essa é uma figura que tende a ser valorizada num esquema mais industrial. Em Hollywood, nos anos de ouro, havia até a polêmica sobre quem era o autor do filme, o roteirista ou o diretor? A mais célebre de todas essas polêmicas envolveu a crítica Paulione Kael, indagando-se se Orson Welles ou Herman Mankiewicz (irmão de Joseph…) era o autor de ‘Cidadão Kane’? Leopoldo Serran teve de fazer TV, em momentos pontuais de sua carreira, para sobreviver – preparou a minissérie ‘Engraçadinha’, na Globo -, mas sua paixão eram os filmes. Ele sempre foi crítico do cinema de autor e do cinema feito com dinheiro público, que não exige retorno e, portanto, tende a não se preocupar muito com o público. Para Serran, o problema sempre foi este e por isso ele sempre achou bobagem dizer que o descalabro do governo Collor havia atirado o cinema brasileiro no buraco. Para Serran, o problema era muito anterior. Até por acreditar na indústria, ele virou o roteirista do clã Barreto. Escreveu ‘O Quatrilho’ para Fábio e ‘O Que É Isso, Companheiro?’ para Bruno, e os dois filmes foram para o Oscar. Para Bruno, ele escreveu também os roteiros de ‘Amor Bandido’, ‘A Estrela Sobe’ e ‘Dona Flor e Seus Dois Maridos’, esse último em parceria com Eduardo Coutinho. Leopoldo Serran estava na faixa dos 60 anos (65?). lembrava-me de uma frase dele e fui pesquisá-la no arquivo do ‘Estado’. Ele via no descaso pelo roteiro o grande problema para a implantação de uma indústria no País. Dizia que, por isso, o Brasil não conseguia ter uma cinematografia, capaz de produzir dez filmes por ano, a que mais de 500 mil pessoas assistissem. A frase provocativa do Serran era a seguinte – ‘Porque produzir um filme e passar num cineminha não é cinema. É brincadeira, é palhaçada.’ É um tópico interessante de discussão neste momento em que, sucessivamente, os filmes nacionais estão estreando para o sacrifício. Nenhum alcança um público ‘médio’ e todos se distanciam de ‘Meu Nome não é Johnny’, que permanece como campeão solitário, após fazer quase 3 milhões de espectadores, desde o começo do ano.