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Luiz Carlos Merten

15 Maio 2008 | 14h18

CANNES – Sorry, mas meu dia foi meio complicado. Para começar, estava exausto e não me chamaram no hotel, o que significa que perdi o filme da manhã – ‘Leonera’, de Pablo Trapero – e passei o dia correndo atrás do prejuízo, tendo de remanejar programas e entrevistas para poder ver o concorrente argentino à Palma de Ouro, o que fiz agora à tarde. Foi até melhor – assisti na sessão oficial e é sempre emocionante ver entrar a equipe, precedida pelo diretor artístico Thiérry Frémaux e pelo diretor-geral Gilles Jacob. É de praxe que todos sejam aplaudidos de pé, antes da sessão. Se vão ser aplaudidos de novo, depois, é outra história. Eu admito que sou manteiga derretida, porque sempre me emociono. Acho que é o tipo da emoção que o sujeito carrega pela vida. Goastei do filme, que resume aquilo que a gente sempre define como as qualidades do cinema argentino. Histórias simples, humanas, bem narradas e interpretadas. Marina Gusman, mulher do diretor, faz esta garota que vai presa, acusada de assassinato. Ela tem o filho na cadeia e descobre que poderá ficar com ele até 4 anos. Depois, a criança será entregue a um familiar ou a uma instituição. No caso de ‘Leonera’, a avó, com a cumplicidade do advogado, seqüestra o menino. Pablo Trapero volta a falar de família como inferno e paraíso, como em ‘Família Rodante’, mas desta vez ele fez o contrário de um road movie. A personagem fica presa na cadeia para fazer a viagem transfrormadora. Exuistem muitas maneiras de ver ‘Leonera’. A história de uma mulher abusada que dá a volta por cima, uma crítica do embate entre o instinto e a cultura repressora, mas acho que, no limite, ‘Leonera’ tem de ver com a construção da ética da protagonista, e isto tem muito a ver com o co-produtor brasileiro do filme, Walter Salles – por meio da Videofilmes. Waltinho também desenvolveu este tema, através de outra história, em ‘Central do Brasil’. Ele participou da montée des marches com Trapero. Daqui a dois dias, no sábado, será o próprio Walter, com Daniela Thomas e Vinicius de Oliveira, a fazer a montée de ‘Passe LIvre’. Um bom início para o cinema argentino aqui na Croisette, mesmo que seja exagero dizer que se trata de um grande filme. Lá pelo miolo, ‘Leonera’ escorrega pelo melodrama. Mas eu gostei e ainda vamos ter, pela Argentina, o novo filme de Lucrecia Martel, ‘La Mujer sin Cabeza’. Adoro o cinema de Lucrecia, mas num certo sentido ela é menos ‘argentina’ e mais ‘européia’. Vamos ver o que nos reserva a mulher sem cabeça.