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Cultura » Leone? Não, Boetticher

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Luiz Carlos Merten

07 Julho 2011 | 10h02

Socorro! Os deuses da tecnologia continuam conspirando contra mim. Voltei para casa aonteontem depois de algunms dias na UTI do 9 de Julho, mais outros tantos de internação. A equipe médica me virou do avesso tentando descobrir porque, depois de dez dias de antibiótico intensivo, a pneumonia voltou. A equipe era formada por cinéfilos. Me senti super bem tratado, mas não aguentava mais ser furado a toda hora. Já passei por cirurgias – graves – mas nada se comparara às horas em que permaneci tomando potásssio na veia. Cada gota era uma punhalada, e foram 6 horas. Paguei meus pecados. Estava louco para postar e ontem, entre uma matéria e outra para o jornal, tentei comentar alguma coisa que estava vendo na TV paga. Volto ao começo do post. Digitando diretamente no post ou no Word, na hora de salvar, bye-bye, lá se iam os textos.  Mas que raio de perseguição é essa? Está havendo uma overdose de Sergio Leone nos canais pagos. Vi ontem ‘Quando Explode a ~Vingança’, Giù la Testa ou Duck You Sucker, e mesmo correndo o risco de ser execrado em praça pública tenho de admitir que gosto  mais de Leone nas partes que no todo. Em todos os seus filmes existem cenas magníficas, as trilhas ‘operísticas’ de Ennio Morricone enchem os ouvidos – como as imagens enchem os olhos -, mas aquilo tudo me parece meio fogo de palha. Os personagens são estereótipos, não sinto densidade, é só uma brincadeira de cinéfilos. Só para comparar – revi  também ‘O Regatev do Bandoleiro”, The Tall-T, de Budd Boetticher, com Randolph Scott. Leone brinca de mocinho e bandido, Boetticher reflete sobre como os homens agem segundo códigos de honra e dignidade num Oeste que se transforma, se torna cada vez mais civilizado e, no entanto, paradoxalmente, os homens ficam cada vez mais violentos e amorais. Na trama de ‘O Resgate do Bandoleiro’, Randolph Scott pega a diligência que carrega o casal Maureen O’Sullivan/John Hubbard. Maureen é a mulher que Scott sempre quis, mas ela já está comprometida. Surge o bando de Richard Boone, que vem cobrar um resgate. Boone e Scott são imagens projetadas um do outro, como num espelho. Scott é um homem ético devorado por instintos violentos e Boone é o homem violento com um código muito rígido de moral. Scott precisa da mulher para se humanizar – Boone mata o marido dela -, da mesma forma que a estabilidade do Oeste vai depender do que Scott e Maureen conseguirem criar juntos. Comparativamente, a prostituta Claudia Cardinale que distribui a água entre os trabaklhadores da ferrovia no desfecho de ‘Era Uma Vez no Oeste’ é coisa muito superficial. Budd Boetticher foi toureiro antes de realizar seus brilhantes westerns com Randolph Scott (quatro dos sete foram escritos por Burt Kennedy).  Por volta de 1970, minha ex-Doris, e eu viajamos pelo altiplano peruano. Não faço a menor ideia onde foi, em qual cidadezinha, mas tive o privilégio de assistir ao documentário que Boetticher dedicou ao lendário toureiro Arruzza. Os movimentos de câmera na arena até hoje me perseguem. O que que era aquilo? Boetticher não representava apenas a pureza de um gênero. Foi um grande artiusta que fez da simplicidade a sua ferramenta para entender os homens.