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Luiz Carlos Merten

08 Junho 2007 | 09h25

Ainda não sei com certeza, mas acho que vou ficar fora, na semana que vem, e assim vou perder o Cine-Sul, o Festival de Cinema Latino-Americano do Rio, que este ano presta homenagens a Hugo Carvana e Leonardo Favio. Não tenho gostado dos filmes recentes de Carvana, admito, mas tenho um carinho muito grande por Vai Trabalhar Vagabundo e Bar Esperança, que a Globo vai exibir segunda-feira, no Cine Brasil. São filmes que estabeleceram o ator e diretor como um cronista doce-amargo de um Rio mítico, quando ainda havia malandragem, hoje substituída pela violência. Não sei o que vocês pensam, mas, já que Não por Acaso está em cartaz, não custa lembrar o jogo de sinuca de Nelson Xavier e Paulo César Pereio em Vai Trabalhar, que é, para mim, um momento antológico do cinema brasileiro. E no Bar existe a Sílvia Bandeira, que é maravilhosa. Mas o que me faz lamentar, mesmo, a ausência no Cine-Sul é a homenagem a Leonardo Favio. Onze entre dez diretores argentinos vão confirmar que ele é uma das grandes personalidades do cinema do país vizinho. Favio foi descoberto por Torre-Nilsson, outro nome fundamental do cinema do Prata, com quem fez El Secuestrador, Fin de Fiesta e La Mano en la Trampa. Em 1964, ele fez seu primeiro longa, Crónica de Un Niño Solo, a que tive o privilégio de assistir em Buenos Aires. Depois vieram Este es el Romance del Aniceto y la Francisca e Juan Moreira. Todos esses filmes fazem parte da minha memória, mas gostaria muito de revê-los. Mais para o fim dos anos 60, Favio iniciou outra carreira, de cantor e compositor. Foi sempre paradigma de um cinema argentino combativo e politizado. Líder peronista, teve um hiato de quase 20 anos na carreira como diretor. Não vi seu monumental documentário sobre Perón, Sinfonia del Sentimiento, que tem, sei lá, umas seis horas, mas só o título me deixa nos cascos. Às vezes tenho medo de confrontar esses mitos do passado. Leonardo Favio será tudo aquilo que está escrito na minha memória e na de tantos artistas aregentinos que fui conhecendo depois? Será? Vou tentar rever alguns de seus filmes, pelo menos, mas já lamento que essa mostra não venha a São Paulo… Quem sabe o Memorial da America Latina? Ou o Adhemar Oliveira, para se redimir dos 20 minutos de comerciais antes de Piratas do Caribe no Fim do Mundo? Afinal, Leonardo Favio representa, sempre representou, a resistência do cinema latino ao colonialismo cultural.

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