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Luiz Carlos Merten

14 Outubro 2011 | 14h25

RIO – Estava indo para a entrevista com Patricio Guzmán, no Windsort Atlântica, ex-Méridien. Lembrei-me sei lá do quê, liguei para a redação e encontrei todo mundo estressado, na pauleira. Morreu Leon Cakoff. A Mostra deste ano, que começa quinta, dois dias após o encerramento do Festival do Rio, na terça, com certeza não será mesma coisa. Não quero ser cínico. Leon não era nenhum santo nem eu. Ele não me perdoava o que considerava minha preferência pelo Festival do Rio. Houve momentos em que brigamos, mas se há uma coisa que eu sei que amávamos era o cinema. Em Cannes, em maio, ele já se sabia condenado. Encontrei-o diversas vezes nas sessões, nunca conversamos tão desarmados. Em Cannes, confesso, me preocupoava mais com Renata Almeida, sua mulher, que me parecia fragilizada. Pudera – admionistrar filhos, marido doente e um evento da magnitude da Mostra. Foi-se o Leon, mas permanece seu legado, e o maior é a Mostra. Ao longo destes 35 anos, se há uma coisa pásra a qual tiro o chapéu foi para a resistência do Leon, durante a ditadura, para o seu esforço para trazer ao Brasil um tipo de cinema seletivo, autoral, de arte. Sempre brincamos – todos – com o gosto de Leon por cinematografias exóticas. Kazaquisão, Bezequistão, essas coisas. Em festivais internacionais, de alguns filmes muito miúras, ancorados em realidades nacionais que nos pareciam obscuras, distantes, dizíamos, diversos críticos, ‘Esse filme tem a cara do Leon.” Seria longo enumerar a lista dos autores e cinematografias que ele revelou para o Brasil, que trouxe a São Paulo. Tantos filmes que só chegaram aqui por causa dele. Foi um batalhador, um guerreiro. Sua morte me entristeceu mais do que imaginava que pudesse acontecer. Lá vou eu para a entrevista com Guzmán, na sequência tenho de fazer a mediação do debate de ‘Sudoeste’. Se pudesse, iria correndo para o cinema. A melhor maneira de homengear Leio seria vendo um filme bem pequeno, sobre o qual não saberia nada, na expectativa de que fosse bom. Seu sonho, ele me disse um dia, era que o espectador da Mostra entrasse num filme, em qualquer filme, às escuras, certo de que ia ver uma coisa boa. Bastaria o selo de qualidade da Mostra. Longa vida ao evento.