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Leões e Cordeiros (2)

Luiz Carlos Merten

29 Outubro 2007 | 16h36

Há uma sutil diferença entre o título brasileiro e o (norte)americano do novo filme de Robert Redford com Tom Cruise e Meryl Streep. Chama-se, no original, ‘Lions for Lambs’, o que quer dizer ‘Leões por Cordeiros’, um pouco querendo indicar que leões se passam por cordeiros, mas também explicitando a citação que o próprio Redford faz de um texto de um texto alemão da época da 1ª Guerra, que dizia que os soldados ingleses eram leões comandados por cordeiros. Achei ‘Leões e Cordeiros’, independentemente dessas picuinhas de título, uma raridade na produção hollywoodiana, um filme que discute idéias e conceitos, estruturado em três frentes. Tom Cruise faz o senador que convoca a jornalista Meryl Streep a seu gabinete para divulgar a nova ofensiva americana no Afeganistão. Robert Redford é o professor que convoca estudante para uma conversa de homens no seu gabinete, querendo saber porque um cara que parecia tão talentoso simplesmente está desistindo de tudo, deixando-se levar pela vida em vez de tomá-la em suas mãos. E há uma terceira frente, a de dois estudantes, um negro e um chicano, que se alistaram para lutar na guerra e são lançados na armadilha preparada pelo senador Cruise e pelo alto comando do Exército. O que se discute nessas três frentes é a ambição do poder e a responsabilidade da imprensa no caso Cruise/Streep, o idealismo versus pragmatismo do embate Redford/Andrew Garfield (que faz o estudante) e o trágico engano dos dois soldados que acreditam que o comprometimento, no campo de batalha, vai fazer surgir uma nova consciência nos EUA. Não quero esgotar aqui as possibilidades de discussão antes que vocês vejam o filme, apenas destacar duas ou três coisas. Alguns temas em discussão neste filme também estão em ‘O Reino’ (‘The Kingdom’), com Jamie Foxx, que Matthew Carnahan também escreveu e não é tão bom. O mais curioso é que Redford e Carnahan trouxeram o diretor de ‘O Reino’,o ator Peter Berg, colocando-o no papel do oficial que manda os ex-alunos de Redford para a armadilha (isso quer dizer alguma coisa, ou não me chamo Luiz Carlos Merten). A discussão da conivência da imprensa na era George W. Bush é ainda mais visceral do que em ‘Boa Noite e Boa Sorte’, de George Clooney. Quando Meryl Streep interpela seu editor, que quer que ela publique, sem contestar, as informações que lhe passou o senador, o cara pergunta quantos anos ela tem? 57? E ela não tem uma mãe para cuidar? Se for demitida dali, onde arranjará outro emprego? Quando a reportagem entra no ar, é precedida de três planos de Meryl Streep no táxi – o que ela vê – e esses planos dizem tudo sobre os EUA, na atualidade. É preciso um trio de pesos pesados como Redford/Cruise/Streep para ousar tanto. E Meryl é maravilhosa. Nunca seus 57 anos apareceram tão nítidos. Sua primeira cena põe em relevo todas as rugas ao redor dos olhos, da boca. Não é nenhuma dessas bonecas clonadas que a gente vê nas novelas das 8 da Globo, mulheres que se esticaram tanto que estão ficando todas iguais.