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‘Lento e bruto…’

Luiz Carlos Merten

17 Julho 2011 | 09h06

Carrego comigo os versos de meiu amigo Nei Duclós, grande poeta, que, de vez em quando, me alegra com seus comentários em alguns posts. ‘Lento e bruto eu mudo/Sei que vem outubro.’ Os versos são do poema que dá título a seu livro ‘Outubro’. E por que estou me lembrando disso? Por causa do filme ‘Outubro’, dos irmãos peruanos Daniel e Diogo Vega. Entrevistei ontem Daniel, que está em São Paulo participando do 6º Festival de Cinema Latino-Americano. Infelizmente, não pude dar ao festival a atenção que merecia, um pouco por estar meio imbolizado, em casa, mas também porque o ‘Caderno 2’ estava comprometido cxom a cobertura diária do Festival de Paulínia e não havia espaço. O Festival Latino termina hoje. Lembrei-me do Nei não só pelo título, mas porque ‘Outubro’, o filme, é sobre o sutil processo de mudança que atinge um homem. Não sei se ‘Outubro’ ainda tem sessões neste domingo, mas a bela notícia é que o filme estreia já na sexta que vem. Conversamos sobre as influências dos irmãos Vega em seu filme, o Robert Bresson de ‘O Dinheiro’ e o Sidney Lumet de ‘O Homem do Prego’, The Pawnbroker. Sobre os autores que eles admiram, ou que Daniel admira, os Dardenne, Dardenne, Dardenne. E sobre a Lima que conheci no começo dos 1970, quando os irmãos Vega ainda não eram nascidos, ou eram bebês. Daniel está com 37 anos. É o mais velho. O ano devia ser 1974, no pós-pinochetaço. O avião fazia uma escala em Santiago. O aeroporto estava militarizado. Em 1973, dois ou três meses antes do golpe contra Salvador Allende, em 11 de Setembro, Doris e eu estávamos em Santiago, em plena greve dos taxistas. Dava para ver que o governo da Unidade Popular desmoronava, mas os apoiadores do regime fantasiavam, acreditando que o povo pegaria em armas em defesa de Allende. Conversei bastante com Daniel Vega sobre cinema e seu filme, mas também sobre a Lima que conheci. Morro de vontade de voltar ao Peru, não apenas a Lima, mas a Cuzco, Puno e Machu Pichu. Foi uma bela viagem ao ‘teto do mundo’. Não sei se essa viagem que sonho (re)fazer não está ligada a uma impossível busca do tempo passado,. jamais diria ‘perdido’.