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Cultura » Lembranças de Rod Steiger, o homem do prego

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Luiz Carlos Merten

21 Abril 2007 | 22h31

Falei agora no Rod Steiger, a propósito de The Pursuit of Honor, e me lembrei de uma conversa que tive com meu colega Antônio Gonçalves Filho, antes de embarcar para o Japão. Toninho foi ver O Cheiro do Ralo, gostou do filme, mas aí, conversa vai, conversa vem, lembrou-se de The Pawnbroker, de Sidney Lumet, de 1965, com Rod Steiger. Chegamos à conclusão – tive de concordar com ele – que Lumet, diretor irregular, fez há 42 anos o melhor filme sobre um sujeito que, como o Selton Mello no filme do Heitor, vive de comprar e vender objetos usados. Não sei se o Heitor viu o filme do Lumet, que no Brasil se chamou O Homem do Prego, mas, tirando a fixação do Selton em bunda, os dois filmes têm muito em comum. Rod Steiger também mantém sua lojinha num bairro de excluídos e usa o pequeno poder que o dinheiro lhe dá para humilhar drogados e necessitados. É verdade que a natureza do personagem é mais complexa. Rod Steiger faz um judeu que sobreviveu ao Holocausto. Saiu de um campo de concentração na Alemanha para essa existência apagada em Nova York, atormentado por lembranças da guerra. Lumet incorporava conquistas que era recentes, de tempo e espaço, assimiladas do Alain Resnais de Hiroshima, Meu Amor. Não sei o que houve com O Homem do Prego. Existem filmes que, simplesmente, desaparecem. Talvez tenha saído em DVD nos EUA (nunca vi à venda), mas é um fato que não entrou no circuito de atrações da TV, paga ou aberta, do Brasil (e, salvo engano, também não saiu aqui em digital). Há quase 20 anos que faço os filmes da TV no Estado e não me lembro de haver, uma única vez, escrito sobre O Homem do Prego na telinha, nestes anos todos. Rod Steiger era um ator do Método, tendo freqüentado o Actor’s Studio. No cinema, nos anos 50, ele foi o cara que assassinou os sonhos de toda uma geração, no papel do gângster que força o irmão pugilista (Marlon Brando) a perder uma luta para que possa ganhar um monte de dinheiro em Sindicato de Ladrões, de Elia Kazan. A fala de Brando é antológica. Dentro do carro, num lamúrio, ele diz a Rod Steiger que poderia ter sido grande. E chora. Brando era gênio na arte de representar, mas, para mim, nunca foi melhor do que naquela cena antológica. Rod Steiger casou-se com Claire Bloom, fez na Itália Le Mani Sulla Città, do Francesco Rosi, e em 1965 foi indicado para o Oscar de melhor ator, por O Homem do Prego. Tenho certeza de que concorriam, naquele ano, Richard Burton, por O Espião Que Saiu do Frio, de Martin Ritt, e Lee Marvin, por Dívida de Sangue (Cat Ballou), de Elliott Silverstein (e este último foi o vencedor). Dois anos depois, Rod Steiger foi de novo indicado – por No Calor da Noite, de Norman Jewison – e a Academia de Hollywood, tardiamente, lhe fez justiça, dando-lhe sua estatueta dourada. Não sei, não, mas falei do Rod Steiger para poder comentar O Homem do Prego e agora percebo que estou falando mesmo é dele, do ator. Ken Olin deve ter pensado o mesmo que eu. O assassino dos sonhos de um homem de Sindicato de Ladrões retratou-se na velhice tentando salvar cavalos. Horace McCoy comparava cavalos e homens. Mas não se matam cavalos? era para denunciar a matança de homens. The Pursuit of Honor faz da matança de cavalos uma metáfora sobre transformações históricas que ainda não estão encerradas. O cinema que me interessa abre uma janela para que a gente possa entender o mundo – e a nós mesmos.