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Leite derramado!

Luiz Carlos Merten

30 Outubro 2016 | 09h57

Toda literatura de Chico, o Buarque – mas tem outro? -, é sempre uma desconstrução. Da história, do personagem, do texto. No limite, Chico espera sempre que o leitor restaure o que parece descontínuo. Dito isso, é um autor que me parece ‘difícil’. Leio sewmpre como uma tarefa que me imponho. Mas deve ser essa particularidade que faz com quie suas suas criações estimulem tanto a transcriação. Os filmes adaptados de seus livros são bons – Benjamim, Budapeste. Estorvo, de Ruy Guerra, é ótimo – o último grande filme do diretor? Ontem à noite fui ver Chico Buarque no teatro. Leite Derramado, na transcriação de Roberto Alvim. Fomos – Gabriel Villela, Dib Carneiro e eu. Fomos jantar na Speranza. Claudio Fontana, depois de Esperando Godot, juntou-se a nós. Encontramos Celso Frateschi e a mulher, Sílvia, gaúcha, como eu. Inicialmente, estavam em outra mesa, com Zuza Homem de Mello e a mulher, mas eles foram embora. Foi uma noite gloriosa, de muita conversa. Teatro, política, política, teatro. Temer (fora!) está introduzindo a Família Adams no Planalto. Ele é nosso Conde Drácula, sua Mortícia – com todo respeito, ministra – é Carmem Lúcia. Olhem, o cabelo dela! Volto ao Chico, ao Roberto Alvim. Ele desconstrói o Brasil. Começa com ‘Brasil, Brasil, meu mulato inzoneiro’ e termina como ‘Deus lhe pa-guê!’ Um velho centenário, presumível herdeiro da elite brasileira. Seus delírios atravessam a história – avô escravagista, pai senador corrupto, neto guerrilheiro, bisneto traficante. A finitude, o tempo. No final, é tudo o delírio de… ‘Por esse pão pra comer/por esse chão pra dormir/ pela certidão pra nascer e a concessão pra sorrir/Por me deixar respirar, por me deixar existir/Pelo prazer de chorar e pelo estamos aí/Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir/Um crime pra comentar e um samba pra distrair/Deus lhe paguê…’ Logo na abertura adentram o palco três figuras com máscaras de… formigas? Saúde e saúva são os males do Brasil, sempre foram. Ao contrário do Deus nos acuda de Tróilo e Créssida, que virou para mim referência do que não se deve fazer em teatro, aqui domina o rigor cênico. Trilha, iluminação, figurinos, adereços – tudo rigoroso, impecável. Adoro essa zona de sombra em que se passam as montagem de Roberto Alvim. Alegorias, simbolismos. As ‘saúvas’ transformam-se em cena. Podem virar os escravos do avô, por exemplo. A (não) representação do negro, e de repente eu estavas viajando, de novo, no debate da noite anterior, sobre O Nascimento de Uma Nação, na Mostra. Tem algo de Bob Wilson em certos processos de Roberto Alvim, mas é o anti-Garrincha. Ele não inventou o microfone central nem a transferência de texto, mas com certeza está aprimorando. É uma’démarche’, como dizem os franceses – e há um ‘francês’ no palco -, diferente da de Gabriel Villela, mas na busca de ambos (no processo?) há esse esplendor do verbo, e do intérprete. Um ator faz o movimento labial, mas quem diz o texto é outro. E como dizem! Aquela mulher de Roberto Alvim, Juliana Galdino, que faz o velho, é um assombro. A presença física de Juliana Galdino! A dicção de Juliana Galdino! Essa mulher pode dizer não importa o quê, não importa de que jeito. Será sempre impressionante. Enquanto isso, em Troia… Gostei muito da inteligência e da ousadia de Leite Derramado. E tudo isso em enxutos 70 minutos. Com Peer Gynt e Leite Derramado em cartaz, o teatro, aleluia! – Deus é Pai -, existe.