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Luiz Carlos Merten

08 Dezembro 2010 | 16h35

Só mais um postezinho. Uma das coisas de que gosto, nos cinemas de Nova York, é que eles chegam a exibir uns dez trailers, anunciando as próximas atrações – tive uma geral da temporada do Oscar – e o tempo todo estava relaxado, sabendo que, daqui a pouco, ao contrário do que ocorre no Unibanco Arteplex, não teria de assistir à propaganda da ‘Piauí’. A revista faz tanta questão de dizer que se destina ao público inteligente. Imagino que isso me exclua. Odeio as propagandas de ‘Piauí’. Mas o post não é sobre isso. É sobre alguns trailers que vi. Dois. O primeiro, com Brad Pitt e Sean Penn. ‘The Tree of Life’, A Árvore da Vida, o novo Terrence Malick, a relação de um pai com seu filho e o adulto amargurado e rancoroso em que o menino se transforma. Pelas imagens, o filme é Malick no auge da potência criadora. Momentos, sensações. Fiquei louco. O filme tem cara de ir para Berlim. Espero que vá. O outro trailer foi o de um blockbuster. ‘Tron – Legacy’. O que que é aquilo? Pode até ser uma porcaria, mas duvido que seja. O ‘Tron’ original, de 1982, foi fracasso de público, provavelmente por ser um filme adiante de sua época. A própria Academia de Hollywood recusou-se a candidatar o filme ao Oscar de efeitos especiais porque era feito na base do computador, portanto, ‘trapaceava’ (foi a justificativa). Hoje, o computador é a ferramenta sem a qual não se fazem efeitos. ‘Tron’, o antigo, virou cult. O diretor da nova versão é um maluco de 30 e poucos anos chamado Joseph Kosinski. Você não deve saber quem é, pois é a estreia dele (embora em josephkosinski.com, seja possível avaliar um pouco seu trabalho como diretor de publicidades da Mercedes e da Nike). Kosinski estudou arquitetura, é um impressionante construtor de imagens, na tradição de Fritz Lang (‘Metrópolis’) e Ridley Scott (‘Blade Runner’). Aliás, ‘Blade Runner’, contemporâneo do primeiro ‘Tron’, também fracassou na bilheteria, mas virou cult antes (rapidamente). Hollywood é sempre reservada quanto aos orçamentos. A Disney deve ter escolhido Kosinski por sua imaginação visual, mas também porque, com um estreante, seria fácil controlar o orçamento de US$ 170 milhões. Parece, reproduzo o que li, que só a preparação do lançamento consumiu três anos. Se o objetivo era ter um diretor dócil, não deu muito certo. Kosinski parece ter sido jogo duro na defesa de suas ideias. O produtor Sean Bailey, que foi quem o bancou – seduzido pelo visual de seus experimentos publicitários – contou uma história para o ‘The New York Times’ (li no avião, o jornal dedicou a capa de ‘Arts & Lesure’ ao filme). Quando garoto, Joseph (Joe) construiu um protótipo de avião, uma miniatura. Durante meses, ele se dedicou àquilo, obsessivamente. No grande dia – ia voar ou não? -, o pai, preocupado com o efeito de um possível fracasso na mente do filho, tentou fazê-lo desistir, disse que o esforço já valia a pena, aquelas coisas que se dizem para incentivar. O pequeno Joe disse ao pai que não se preocupasse. Que ia voar – e voou. Bailey conta a história como metáfora, porque ele também espera que Joseph Kosinski faça decolar seu novo brinquedo – ‘Tron’. Pelo que vi, não duvido nada que isso aconteça. O avanço tecnológico não pára. Kosinski já teve de atualizar as câmeras utilizadas por James Cameron em ‘Avatar’, que estreou há um ano. ‘Avatar’ já é o passado? Lembro-me do próprio Cameron dizendo aqui em São Paulo que, hoje, se há um limite, é o da imaginação, não da técnica. O legado do novo ‘Tron’ é pegar isso ao pé da letra.