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Luiz Carlos Merten

13 Abril 2009 | 15h15

De volta a São Paulo. Ganhei ontem, em Porto, de presente de Páscoa, de minha ex, o DVD de ‘Le Trou’, lançado com este título pela Silver Screen. O filme de Jacques Becker, de 1959, foi lançado no Brasil como ‘A Um Passo da Liberdade’. Baseia-se num livro de José Giovanni, que virou depois diretor (e que colaborou no roteiro, co-assinado pelo próprio Becker e por outro futuro realizador, Jean Aurel). O buraco do título original é aquele que cavam cinco presidiários, como parte de seu plano para fugir da cadeia. Foi o último filme do diretor e ele já estava tão debilitado – morreu em seguida – que seu filho e assistente, Jean, que também virou diretor (‘Verão Assassino’, ‘Conversas com Meu Jardineiro’), precisou filmar alguns planos. Conversei vgárias vezes com Jean Becker sobre isso – em entrevistas que fiz com ele pelo telefone, e em Paris, em janeiro, durante os Encontros do Cinema Francês. Becker foi um dos grandes do cinema francês e um dos raros que a geração ‘nouvelle vague’, encastelada em ‘Cahiers du Cinéma’, preservou quando Truffaut e Cia. demoliram o que chamavam de ‘cinéma de qualité’. ‘Le Trou’ é um filme de rigoroso e absoluto realismo. Assistimos ao trabalho metódico dos presidiários. Primeiro, eles planejam a fuga. Depois, precisam de ferramentas para executar o plano. Como não dispõem delas, nem podem consegui-las fora da cela, elas são improvisadas com o material à mão. Não vou contar o que ocorre para não tirar a graça, mas é bom saber que o diretor rechaça o que poderia ser uma facilidade – o suspense. Muita gente até hoje se pergunta o que Jacques Becker queria celebrar com esse filme? O engenho humano, o trabalho? Michel Constantin, Philippe Leroy e Marc Michel são alguns dos atores. O último virou ator fetiche de uma fase de Jacques Démy (em ‘Lola, a Flor Proibida’ e ‘Os Guarda-Chuvas do Amor’, como o marido burguês de Catherine Deneuve). ‘Le Trou’ surgiu três anos depois de outro filme de fuga que se tornou emblemático do cinema francês. Em ‘Um Condenado à Morte Escapou’, de 1956, Robert Bresson conta uma história real, inspirada na fuga do comandante Devigny, líder da resiostência, condenado pelos nsazistas, que conseguiu fugir da cadeia horas antes de sua execução. Bresson filmou nos próprios locais em que Devigny esteve prisioneiro. Um não profissional, François Leterrier, é quem faz o papel, e ele virou mais tarde diretor. Vários críticos, incluindo jean Tulard, no Dicionário de Cinema, dizem que o sonho de cinema de Bresson é o ator contra uma parede branca, nua, recitando seu texto monocordicamente. ‘Un Condamné à Mort s’Est Échappé’ chega perto. A trilha é formada basicamente por ruídos e por raras palavras murmuradas pelo herói. No finalzinho, entra a música, e é Mozart, senão me engano um trecho do ‘Réquiem’, o que causou grande estranhamento. Por que? Tentem (re)ver o filme para captar a estranheza. Bresson filma um indivíduo, Becker volta-se para o grupo. O despojamento de Bresson é não realista. Ele investiga o interior de seu personagem como alguém que busca a graça (no sentido teológico). Seu filme foi premiado pela direção em Cannes, em 1957. Quase dez anos mais tarde, em 1966, outro grande filme (maior?) de Bresson, ‘A Grande Testemunha’ (Au Hazard Balthazar), foi recusado péla comissão de seleção de Cannes e, em 1977, Cannes fez sua derradeira desfeita ao autor, recusando ‘Le Diable, Probablement’. Não saberia dizer de qual desses dois filmes sobre fugas gosto mais – do de Becker, talvez, pelo desfecho anticlimático (e triste, muito triste), mas o de Bresson é obra-prima. Curiosamente, 20 anos depois de ‘Le Trou’, um grande diretor de Hollywood contou outra história de fuga. Não existe nada mais diferente dos filmes de Bresson e Becker do que ‘Alcatraz – Fuga Impossível’, de Don Siegel, com Clint Eastwood. Clint é um presidiário que ‘esculpe’ sua fuga de Alcatraz como se fosse um artista. O filme tem cor, suspense, música, tudo o que os dois Bs franceses evitam (ou minimizam). Mas, no limite, o que está em jogo em todos esses filmes é a engenhosidade humana, nossa capacidade de superar a adversidade.